segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A morte de minha filha Ester


Conto-lhes a minha mais amarga experiência vivida: a morte de minha filha Ester, aos quinze anos de idade. Nada que eu soubesse ou que alguém me pudesse ensinar, nem um milhão de palavras teriam, o efeito que me proporcionou essa taça de amargura lenta e amargamente aceitei bebê-la.

Foi inesperadamente, sem o menor aviso. Uma pessoa querida é arrancada da vida, do convívio familiar , do seu projeto, de min, por um maldito, ridículo e simples erro médico. Quando a vi estendida, sem vida no leito de morte, achei que não resistiria. Desabava dentro de mim, uma tempestade de proporções gigantescas. Destruía tudo, convicções, sentimentos esperanças, crenças.

Tudo, tudo se esfacelava. Senti que o caldo abominável que me tocava beber iria me destruir os sentimentos e a mente. Agonizei! mas não era a morte da filha amada que me abalava era outras coisas. A maior dor era de descobrir que tinha definitivamente, perdido oportunidade de amar aquela filha. Não contara que o meu tempo com ela só seriam quinze anos .Tinha outras prioridades: carreira profissional, estabilidade financeira, patrimônio em bens, conforto para a família. Trabalhava pelo futuro e esquecia o presente. Não tinha tempo para amar e ser amado. A morte da menina me acordava de um pesadelo desesperado para uma realidade mais desgraçada ainda. Ester passara pela vida e não tivera um pai que a amasse. O desnaturado, o pai desafeiçoado era eu mesmo. Desaprovei-me como nunca o fizera na vida, com outra pessoa. Pior, não tinha mais como concertar o mal, a morte não tem volta.

E mais, ali estavam, diante de mim, os outros filhos e a esposa desamada. Vivera uma grande parte da minha vida, quem sabe a maior parte, e não tinha amado ninguém, nem mesmo ao meus próprios filhos. Sabia tanta coisa e não soube amar Ester. Tinha tanto sucesso profissional e era um fracasso familiar. Como se sabe pouco da vida e dos seus propósitos! Mas foi da morte, da perda irreversível, do conflito de valores afetivos, do abalo da crença, da ruína da razão, da catástrofe, desintegradora que me saiu o soro salvador.

Era dentro desta desgraça que estava minha cura. A terapia e longa e dolorosa, mas natural e espontânea. Volto-me para meus filhos, para minha mulher, para as pessoas ao meu redor, para mim mesmo. Comecei, a partir daí, a reconstrução da minha vida e dos meus relacionamentos. Tenho as pernas fracas ainda, mas caminho agora noutra direção.

No laboratório da vida a mente e os sentimentos humanos aviam as mais estranhas receitas. Do amor se pode atirar veneno mortal. da inveja uma receita de sucesso. Da fantasia falaciosa uma vacina protetora. Da dor e do desgosto uma lição da vida. Quem desvendará essas mágicas fórmulas? Os filósofos, psicólogos, os teólogos, químicos ou os bruxos? Sejas simples e perspicaz. Observe, avalie, pare para pensar. Aprenda as velhas receitas; é a melhor maneira de criar receitas novas e seguras.
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Autor: Ernani Hadres