sexta-feira, 25 de abril de 2014

Dos espaços majestosos...

Dos espaços majestosos, baixemos nossos olhares para a Terra. Apesar de suas proporções modestas, ela tem, sabemo-lo, seus encantos, sua beleza. 

Cada sítio tem sua poesia, cada paisagem sua expressão, cada vale seu sentido particular. A variedade é tão grande nos prados do nosso mundo quanto nos campos estrelados. 

O verão é o sorriso de Deus! Nada mais suave, mais inebriante do que a apoteose de um belo dia em que tudo é carícia, doçura, luz. 

A florinha escondida na relva, o peixe que se esgueira entre as águas, fazendo espelhar ao sol suas escamas de prata, o pássaro que modula suas notas do alto das ramadas, o murmúrio das fontes, a canção misteriosa dos álamos e dos olmeiros, o perfume selvagem dos musgos, tudo isso acalenta o pensamento, regozija o coração.

Longe das cidades, encontra-se a calma profunda que penetra a Alma, separando-a das lutas e das decepções da vida. Só e então se compreende a verdade destas grandes palavras: “O ruído é dos homens, o silêncio é de Deus!”.

A contemplação e a meditação provocam o despertar das faculdades psíquicas e, por elas, todo um mundo invisível se abre à nossa percepção.

Ensaiei, no correr desta obra, exprimir as sensações experimentadas do alto dos cimos ou à borda dos mares, descrever o encanto dos crepúsculos e das auroras; a serenidade dos campos, sob o real esplendor do Sol, o prodigioso poema das noites estreladas, a sublimidade dos luares, o enigma das águas e dos bosques. 

Há momentos de êxtase em que a Alma se transporta fora do seu invólucro e abraça o Infinito; horas de intuição e entusiasmo, em que o influxo divino nos invade qual uma onda irresistível, em que o pensamento supremo vibra e palpita em nosso íntimo, onde brilha, por um instante, a centelha do gênio.

Essas horas inolvidáveis eu vivi algumas vezes e, em cada uma delas, acreditei na visita, na penetração do Espírito. Devo-lhes a inspiração de minhas mais belas páginas e de meus melhores discursos.

Aquele que se recolhe no silêncio e na solidão, diante dos espetáculos do mar ou das montanhas, sente nascer, subir, crescer em si mesmo imagens, pensamentos, harmonias que o arrebatam, encantam e consolam das terrestres misérias, e lhe abrem as perspectivas da vida superior. Compreende então que o pensamento de Deus nos envolve e nos penetra quando, longe das torpezas sociais, sabemos abrir-lhe nossas almas e nossos corações.