domingo, 1 de junho de 2014

O caso do homem que dormiu no cemitério


Num entardecer morno de um dia de sábado de verão do mês de agosto de 1962, já boquinha-da-noite, um homem tangia o seu pequeno comboio, composto de cerca de dez jumentos, arreados com cangalhas, acondicionadas em surrões feitos de palha de carnaúba, uma variada carga de mercadorias destinada aos pequenos comerciantes do povoado de Betânia, um pequeno lugarejo que, naquele tempo, não abrigava mais do que duzentas almas, situado no Município de Hidrolândia, aqui no Estado do Ceará.


Atrás da tropa e um pouco distante dela, vinha o seu condutor, Gonçalo Rosa, primo legítimo de meu pai, montado no seu burrinho que trotava ansioso, pois já pressentia os ares da casa do seu dono que ficava a pouco menos de um quilômetro de distância. Provinham eles, homem e animais, da cidade de Nova Russas, CE, que distava cerca de sete léguas, aonde tinham ido dois dias antes participar da feira pública semanal daquela comuna, o que aquele almocreve fazia habitualmente a cada quinze dias. Na ida, haviam transportado dezenas de meios de sola curtida para serem vendidos no comércio local. A sola é o couro curtido de bovino, caprino ou ovino, próprio para a confecção de alpargatas, arreios, correias etc. O curtume desses couros era a principal atividade de alguns habitantes daquele pequeno Distrito, dentre eles, o tangedor do comboio.



Os jumentos seguiam apressados, parecendo querer chegar logo ao seu destino para verem-se livres do peso que carregavam e matar a fome e a sede no pasto de um cercado. O badalar dos seus chocalhos quebrava o silêncio que naquela hora se impunha naquele sertão seco e quente.



Antes de se chegar ao povoado, vindo-se dos lados da Fazenda Pereiros, onde nasci, tinha-se, inevitavelmente, de passar bem ao lado do pequeno cemitério da localidade, pouco habitado, diga-se de passagem, que era protegido por uma cerca alta de pau-a-pique.



Poucas coisas costumam fazer medo ao sertanejo e uma delas são as “almas do outro mundo”. Para ele, um cemitério está povoado delas. É por isso que ele costuma dizer que homem nenhum passa perto de “um campo santo” sem sentir um pouco de medo, aquele arrepio que sobe dos pés à cabeça, engrossando o corpo e causando uma vontade maluca de sair correndo. Uns correm desabaladamente, outros não correm porque temem ser perseguidos por uma alma numa corrida desigual. Não adianta correr, pois o medo aumenta mais ainda! E tanto faz ser de dia como de noite. A sensação é sempre a mesma. Digo isso por experiência própria, pois tive de passar muitas vezes por aquele mesmo lugar, tanto à luz do dia quanto na escuridão, a cavalo ou a pé. Que pavor! Nessa situação, o melhor a se fazer é não espiar para dentro do cemitério e não olhar para trás depois de passar por ele, no estilo “não te vi, não te conheço” e assobiar pra disfarçar o medo.



Gonçalo Rosa estava tão habituado a fazer aquele trajeto que já nem deveria sentir tanto receio de passar por ali, onde todos os sepultados eram da nossa família, amigos e conhecidos.



Aquele dia, porém, ia ser muito diferente para ele, em vista das circunstâncias que narraremos adiante.



Por volta das duas horas da tarde daquele mesmo sábado, Eduardo Lino, em sua casa na localidade de Juá, após lavar os pés e o rosto com a água contida numa cuia grande, vestiu sua roupa de mescla azul-marinho, calçou as alpergatas de sola grossa e disse pra sua mulher que ia comprar os mantimentos e víveres para a semana seguinte: rapadura, farinha, querosene, fumo etc. E lá se foi ele. Pulou o passador que dava para um cercado próximo e ganhou as capoeiras em demanda do povoado de Betânia, que ficava a mais de meia légua de distância e que ele percorria em mais ou menos uma hora.



Eduardo, que Deus o tenha, era o que costumamos chamar no sertão de “um pau-d’água”. Era um homenzarrão de mais ou menos um metro e oitenta de altura, fala grossa embora mansa, riso fácil, mas arengueiro quando se embebedava. Gostava de tomar cachaça. Tanto em casa, onde mantinha sempre um litro de aguardente de reserva, quanto nas bodegas da redondeza.



Ao chegar ao seu destino, dirigiu-se à bodega do Mousinho, filho de Gonçalo Rosa, e tomou logo um trago generoso num copo de fundo falso, da cachaça avermelhada, destilada na Serra da Ibiapaba. Forneceu-se, fiado, dos mantimentos de que necessitava, colocou-os num saco grande de pano e passou a perambular pelas poucas mercearias, conversando com os conhecidos e tomando os seus goles. Decorrido cerca de uma hora depois de sua chegada, já andava meio grogue, pendendo, a voz empastada, falando alto. Beber com a barriga vazia é embriaguez na certa e aquele pobre homem havia comido pela última vez no almoço frugal que havia engolido por volta das dez e meia da manhã daquele dia, constituído de feijão escoteiro, farinha e rapadura.



Lá pelas quatro e meia da tarde, já muito troviscado, decidiu ir-se embora. Bebeu a derradeira “bicada” e tomou o caminho de casa. Quando chegou ao cemitério, as pernas bambas, já não suportando o peso do corpo, não titubeou. Como o portão estava destrancado, não teve dúvida: entrou, cambaleante, sentou-se encostado à cerca e ali ficou, meio adormecido, esperando a bebedeira passar.



O comboio de jumentos já havia passado pelo cemitério, enquanto Gonçalo Rosa, pensativo, na sela do seu burro, olhos fixos no chão da estrada, chegou ao primeiro canto da cerca, à esquerda do viajante. O Sol já se pusera há algum tempo e fazia aquele lusco-fusco que impede de ver nitidamente. Quando alcançou o meio do lance do cercado, ouviu uma voz grave e profunda, vinda de dentro do cemitério, dizer: “Já vem, né cumpade Gonçal”? Surpreso e assombrado com o que ouviu, Gonçalo ergueu a cabeça subitamente, olhou pra trás, olhou pra mataria à direita e depois pra dentro do cemitério. Como não viu o dono da voz que falara o seu nome, não pensou duas vezes: esporeou o burrinho com toda a força dos calcanhares e o animal arrancou, numa carreira desembestada, em demanda do povoado. Passou pelo seu comboio de jumentos e só foi parar na calçada da bodega do seu filho Mousinho que àquela hora se achava apinhada de fregueses. Desceu do burro, pálido e quase sem voz, entrou no estabelecimento e foi direto ao balcão. O filho, vendo o estado do pai, indagou-lhe o que tinha havido. Como ele hesitasse em responder, o bodegueiro deu-lhe um trago de cachaça que foi engolido de uma só vez. Foi então que pôde responder, já um tanto mais serenado, dizendo apenas: “Uma voz, uma alma, no cemitério...”



Gonçalo era um homem direito e todos acreditavam nele, por isso, a notícia correu e se espalhou pelo povoado inteiro: “O ‘Gonçal’ Rosa viu uma alma no cemitério”! Foi o bastante pra deixar todo o mundo com medo. Ninguém, naquela noite, se aventuraria a ir para os lados do campo dos mortos.



Dia seguinte, domingo pela manhã, retorna Eduardo à povoação e, na dita bodega do Mousinho, toma conhecimento da novidade da tarde anterior: a alma ouvida pelo Gonçalo Rosa. Ao saber do ocorrido, ele cai na gargalhada, gesto que intriga a todos. Foi então que ele narrou a versão do fato. Não era alma, coisíssima nenhuma, era ele próprio que tinha caído, bêbado, dentro do cemitério. Despertara ao ouvir o chocalhar da jumenteira e chamara o nome do amigo que passava. Um misto de alívio e decepção tomou conta dos moradores. Alívio, porque arrefecia o medo que aquela “alma” estava causando à população, e decepção pelo ridículo risível pelo qual passou um dos homens mais acreditados e probos do lugar Betânia.



Casos como o narrado acima não são singulares. Muitos têm tomado ocorrências naturais por sobrenaturais, distorcendo, assim, a veracidade dos sucessos.



No início do Capítulo IX – Dos Lugares Assombrados – de “O Livro dos Médiuns”, se expressa Allan Kardec desta maneira: “As manifestações espontâneas que se produziram em todos os tempos, e a persistência de alguns Espíritos em darem sinais ostensivos de sua presença em determinadas localidades, são a origem da crença em lugares assombrados”. Kardec, no mesmo capítulo, formula diversas questões aos Espíritos sobre o assunto. Na questão ‘5’, por exemplo, ele indaga: “As crenças populares, em geral, têm um fundo de verdade; qual pode ser a origem da crença nos lugares assombrados?” Resposta: “O fundo de verdade é a manifestação dos Espíritos, na qual o homem acreditou em todos os tempos, instintivamente; mas, como já disse, o aspecto dos lugares lúgubres toca a sua imaginação e ele coloca aí naturalmente os seres que considera como sobrenaturais. Essa crença supersticiosa é mantida pelas narrativas dos poetas e os contos fantásticos com os quais embalaram sua infância”. Na questão ‘8’, ele pergunta: “Os Espíritos voltam de preferência aos túmulos onde repousam seus corpos?” Replicam os Espíritos: “O corpo não é senão uma veste; eles não se ligam mais ao envoltório que os fez sofrer do que os prisioneiros às suas cadeias. A lembrança das pessoas que lhes são caras é a única coisa à qual dão valor”.



É a nossa arraigada crença de que as almas permanecem indefinidamente junto aos seus despojos carnais nos cemitérios a causa da produção de fatos como este que acabamos de narrar. 



          José Estênio Gomes Negreiros