domingo, 7 de abril de 2013

Das Baratas

Não era um modelo de dona-de-casa, meio para a displicência.
Não obstante, esforçava-se por evitar restos de alimentos ao léu e acúmulo de pratos e panelas por lavar, mantendo relativa ordem na cozinha.
Isso porque, como é próprio da sensibilidade feminina, guardava instintivo horror às baratas. Elas costumavam fazer incursões quando seu lado desleixado aflorava.
Então, literalmente, sapateava, espavorida, a gritar por socorro, como se ameaçada por monstros.
Depois, reclamava, indignada:
– Só queria saber por que Deus criou esse bicho indecente!
Em meio a um desses chiliques, o filho de sete anos, na sua inocência, tentou uma explicação:
– Será, mamãe, que não foi para você botar ordem na cozinha?
***
Bem, caro leitor, certamente não foi para isso apenas, mesmo porque as baratas são fósseis vivos.
Povoam o planeta há milhões de anos, muito antes do aparecimento do Homem, ou que existissem donas de casa às voltas com elas.
Terá sido um cochilo divino, um erro de planejamento?
Considerando que o Criador “é a inteligência suprema do Universo, causa primária de todas as coisas”, como está na questão primeira de O Livro dos Espíritos, certamente não agiu como mero aprendiz de feiticeiro ou um doutor Frankenstein a dar o sopro da vida a aberrações.
Obviamente, o Eterno tinha um objetivo ao colocar em nosso planeta esse famigerado ortóptero, da família dos blatídeos, vulgo “barata”.
Quando não benéfico estimulante da limpeza na cozinha, e outras funções menos conhecidas, temos nele um dos estágios pelos quais passa o princípio espiritual em evolução, no desdobramento de experiências necessárias ao seu acrisolamento, a caminho da razão.
Não fique perplexo, leitor amigo. É isso mesmo!
Provavelmente já andamos por lá, no reino das baratas, em priscas eras, quando éramos apenas um projeto de Espírito, tanto quanto animamos multifários seres, no reino vegetal e animal, até que começássemos a exercitar o bestunto.
***
Ainda que desconhecendo, talvez, tais meandros da evolução anímica, Franz Kafka (1883-1924), o genial escritor tcheco, descreve, no livro Metamorfose, a aterradora experiência de um homem que se transforma numa barata.
Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos…
Horripilante fantasia, que inverte a ordem natural e evoca a metempsicose, doutrina milenar, presente nas tradições religiosas das mais antigas culturas. É uma idéia equivocada, a contrariar a realidade proposta pela Doutrina Espírita:
A evolução é via de mão única.
Para nossa felicidade, jamais retornaremos a estágios inferiores da Criação, embora muita gente bem o mereça.
Creio que você já ouviu, amigo leitor, em relação a certas pessoas, expressões assim: barata tonta (não sabe o que faz), entregue às baratas (sem rumo, abandonado, negligenciado), sangue de barata (não reage às provocações).
Pois é! Se existisse a involução, teríamos a ficção de Kafka transformada em realidade.
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Em sua infinita sabedoria, o Criador estabelece que, além de servir como degrau para o princípio espiritual em evolução, os seres inferiores tenham outras utilidades, favorecendo o equilíbrio ecológico, que sustenta a vida na Terra.
Às baratas reservou, também, a nobre missão de estimular disciplinas que nos ajudam a vencer a displicência que caracteriza o ser humano, no estágio de evolução em que nos encontramos, envolvendo, não raro, a higiene e a limpeza.
Abençoada barata!
DAS BARATAS, de Richard Simonetti, do livro ABAIXO A DEPRESSÃO