sexta-feira, 9 de maio de 2014

Manicômio? depende do médico…

Aquela terça-feira era mais um dia de azáfama. O médico, psiquiatra, despediu-se dos filhos, do cônjuge, e rumou apressadamente ao Hospital onde presta serviço. Enquanto trincava às pressas uma bucha de pão, no meio do trânsito loucamente normal de Lisboa e arredores, ia ouvindo as notícias, com aquele ar de quem já não ouve nada. Desligou o rádio. Ideias saltitantes iam de galho em galho, nos milhões de neurônios cerebrais: contas à vida, o futuro dos progenitores, o dia de amanhã, entre outras questões existenciais.

Após o matinal musichall das buzinas rodoviárias, lá chegou ao parque de estacionamento do Hospital.

Um café bem forte vinha mesmo a calhar.

Chegado às urgências, um enfermeiro atirou-lhe de repente: “doutor, hoje de manhã, já ali estão três para o senhor”.

Ele parou, sentou-se na secretaria e, enquanto nos escaninhos da mente se questionava por onde andaria o seu pai falecido (agora no mundo espiritual), ia dando uma vista de olhos pelos processos. Pegou no microfone de chamada, ligou-o, e chamou o doente nº 1, num gesto já ritualizado.

Batem à porta, à qual responde: “pode entrar”!

Um jovem, franzino, adentra o consultório, ar cabisbaixo e, como que a sondar todos os cantos do espaço físico, não fosse haver ali alguma ameaça. Afinal, não era um consultório qualquer, era um consultório de um psiquiatra, num Hospital do Estado (nada fiável, pensava ele).

O médico, espírita, após as suas orações antes do trabalho no Hospital, onde solicitara o amparo dos bons Espíritos e a lucidez e discernimento para poder ser útil naquele dia, olhou com ternura o jovem, pensando: “podia ser meu filho!”.

Entre dentes, disse: “sente-se, esteja à vontade. O que o traz por cá?”.

No processo inicial, já tinha havido uma triagem, que o atirava para um internamento compulsivo em psiquiatria  (ouvia vozes que mais ninguém ouvia).

O jovem, meio com medo, lá foi contando a sua história pessoal: desde muito novo que se sentia diferente dos demais jovens e, ultimamente, via seres que mais ninguém via e ouvia-os, ao ponto de alguns o cumprimentarem, outros serem indiferentes e outros, ainda, serem maldosos. Em casa, ninguém via e ouvia o que ele percepcionava e, ali, estava à espera da cura.

O médico, psiquiatra, espírita, ouviu-o atentamente e, após severo diagnóstico médico, concluiu que ele não tinha problema algum, passando a fazer questões do foro espiritual. Neste campo, o rapaz parecia estar à vontade e respondia com desenvoltura ao que lhe perguntava.

Os médicos precisam estudar a doutrina espírita, como nós precisamos de pão, para o dia a dia

O diagnóstico foi fácil: o rapaz era médium, tinha percepção extrassensorial.

“Doutor, é grave?”, perguntava com ansiedade.

Seguiu-se um longo silêncio de alguns segundos, enquanto o médico prescrevia uma receita.

Pensou com os seus botões: “pronto, lá vou eu ficar intoxicado com drogas”.

O médico tinha um sorriso amigo e acolhedor, o que o tranquilizou e, após acabar de rabiscar, disse-lhe: “você não tem doença nenhuma e não precisa de medicação; você tem um sexto sentido que se chama mediunidade e precisa aprender a lidar com ela. Sugiro-lhe esta associação espírita (onde não há comércio nem aceitação de dinheiro), aonde deve ir, expor a sua situação, estudar e integrar-se. Depois, leve uma vida normal!”.

O rapaz estava incrédulo! Nem um calmante?

“Não precisa”, respondeu com bonomia o médico, mas, se precisar, volte e peça para falar comigo.

O jovem deu-lhe um abraço sentido e disse-lhe: “sabe doutor, o senhor é a primeira pessoa a acreditar em mim, que eu não estou maluco. Vou lá sim, e depois volto para lhe dizer como foi”.

E foi-se…

Ao tomar conhecimento deste caso, fiquei alarmado: e se o rapaz desse com um psiquiatra que não fosse espírita?

A esta hora estaria encharcado em antipsicóticos e, quiçá, internado num manicômio…

Que responsabilidade a dos médicos!!!

Felizmente, já existem muitos médicos espíritas em Portugal. Mas ainda não chega.

Que bom seria se a filosofia espírita fosse de estudo obrigatório nos cursos de Medicina, onde os médicos aprendessem que, ao invés de sermos um aglomerado de células, nós somos um ser espiritual temporariamente num corpo de carne, a cumprir um desiderato ao longo da eternidade, resgatando ousadias de outras vidas, que por agora nos trazem transtornos.

Um dia será assim!


                   José Lucas


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