sexta-feira, 5 de julho de 2013

EMIL ZÁTOPEK, A LOCOMOTIVA HUMANA

Por : José Luiz Emerim e Wilson Reeberg

"Zá-to-pek! Zá-to-pek! Zá-to-pek!..." O clamor da multidão de 70.000 pessoas, que lotava as arquibancadas do Estádio Olímpico de Helsinque, lembrava uma locomotiva a vapor arrastando os seus pesados vagões em meio a nuvens de fumaça.

Na pista de atletismo, uma autêntica locomotiva humana deixava atrás de si um rastro de adversários vencidos. Irresistível para as barreiras físicas de sua época, o tcheco Emil Zátopek era objeto de culto, o deus do estádio.

Emil Zátopek

O que ele fez naqueles Jogos, em 1952, desafiou a compreensão humana. Zátopek simplesmente venceu, na mesma semana e na mesma Olimpíada, as três provas mais desgastantes do atletismo: os 5.000 m, os 10.000 m e a maratona. Nem o extraordinário finlandês Paavo Nurmi, a primeira grande lenda do olimpismo moderno, fizera tanto (1). Nurmi vencera os 1.500 m e os 5.000 m em 1924, e os 10.000 m em 1920 e em 1928. Agora, em pé na arquibancada, ao lado de Johan “Hannes”  Kolehmainen (2), outro gigante do atletismo finlandês e mundial e o primeiro homem a vencer os 5.000 m e os 10.000 m na mesma Olimpíada, Nurmi via acontecer o inimaginável: a única conquista da tríplice coroa das provas de fundo do atletismo.

SAPATILHAS NOVAS
Nascido em 19 de setembro de 1922, em Koprivnice, e criado em Zlin, na Morávia, antiga Tchecoslováquia, Emil Zátopek era o segundo dos oito filhos de um operário.
Aos 15 anos, após terminar a escola secundária, Emil saiu de casa para trabalhar na fábrica de calçados Bata. Lá ele recebia casa e comida, trabalhava durante o dia e estudava na escola industrial à noite. Clubes e fábricas participavam ativamente de competições. Mesmo assim, ele só começou a correr em 1941, aos 19 anos, porque foi obrigado. Era o seu último ano como aprendiz de técnico em química de plásticos na fábrica e a participação na corrida anual de 5 km era obrigatória. Emil chegou a mentir que estava doente e que lhe doía o joelho, mas o médico da fábrica examinou-o e declarou-o apto a competir. "Já que eu tinha de correr, então quis vencer", recordaria ele anos mais tarde. Terminou em segundo entre cem concorrentes.
Tudo poderia ter ficado por aí, não fosse o fato de um popular atleta do clube de atletismo da cidade, que ficava próximo da fábrica, ter visto nele um grande potencial. Emil só interessou-se em participar dos treinos quando prometeram-lhe um agasalho e sapatos de corrida. Ele gostou do reconhecimento, mas especialmente da possibilidade de fugir da rotina da fábrica.
Desde 1939 a Tchecoslováquia estava sob ocupação nazista. Eram tempos duros e havia muitas proibições. Ir ao estádio treinar era uma forma de romper com todas aquelas pressões por algumas horas. A sua determinação e disciplina deram frutos. Na primeira competição oficial, 3.000 m rasos, ficou em segundo lugar. O jornal local escreveu: "... um bom desempenho de Zátopek". Por anos ele carregou o recorte na carteira.
INOVADOR
Após o primeiro ano, quando aprendeu os rudimentos do treinamento esportivo, Emil começou a mostrar o seu espírito independente e a experimentar, indo contra os preceitos do seu técnico, que acabou por deixá-lo livre para criar. Sempre uma mente inquisitiva na busca de novas formas para melhorar o seu desempenho, ele ouviu sobre o treinamento intervalado utilizado pelo treinador alemão Woldemar Gerschler. Num livro, leu que Paavo Nurmi era capaz de correr quatro vezes 400 m em uma hora, em tempos excelentes. Então pensou: "E se eu corresse seis vezes 400 m, mais do que Nurmi? E se eu corresse uma distância curta, como 100 m, à máxima velocidade, e continuasse trotando, em vez de parar, e ficasse repetindo isso até enjoar?” Com base neste raciocínio, revolucionou o treinamento esportivo.
Na sua lógica, se ele corresse 30x100 m, com 100 m de intervalo trotando, seriam 3 km em grande velocidade e não mais tiros de 100 m. Todos foram unânimes em condenar a teoria como absurda. Mas Emil limitava-se a dizer: "Vamos ver...", e começou a experimentar. Os colegas viam-no dar voltas sem fim na pista, sozinho, e diziam que aquele treino só o levaria à exaustão. "Não sou veloz. Então preciso aprender a correr rápido. Correr devagar eu já sei", argumentava. Em 1944, os primeiros frutos: num intervalo de duas semanas, tornou-se recordista nacional dos 2.000 m, 3.000 m e 5.000 m.
Com 1,70 m de altura e 54 kg, o seu estilo de correr nunca foi elegante. Os ombros curvados, a boca aberta, a língua de fora, a cabeça para trás balançando de um lado para o outro, os braços cruzando em frente ao peito e uma expressão de agonia faziam pensar que ele cairia exausto a qualquer momento. "Parece que ele está sendo estrangulado", comentou um jornalista. Nas palavras de um treinador da época, "Zátopek corre com a cara de quem foi recém esfaqueado no coração". Ele próprio surpreendia-se ao ver as suas caretas nas fotografias, mas não possuía uma explicação para elas. Tempos mais tarde, quando perguntaram-lhe o porquê da cara feia, retrucou: “Não tinha talento bastante para correr e sorrir ao mesmo tempo”. Mas era essa expressão de agonia, sua marca registrada, que mostrava o sacrifício e a coragem de um homem disposto a tudo no caminho ao pódio.
Por causa da II Guerra Mundial, nos primeiros cinco anos de sua carreira, Zátopek só competiu na Tchecoslováquia. No final da guerra, foi aceito na Academia Militar de Praga. Lá, com muito prazer, descobriu que poderia viajar para o exterior representando o seu país e que os seus superiores queriam que ele treinasse. No Exército, agora sob o sistema comunista, tinha metade do dia livre para os treinos – embora não estivesse dispensado da rotina militar – boa comida e suporte. "Eu adorava aquela vida", repetia sempre.
RUMO AO PÓDIO
Emil estreou no cenário internacional ao chegar em quinto lugar nos 5.000 m no Campeonato Europeu de 1946, em Oslo, com 14min25,8s. O ídolo das corridas de fundo era Viljo Heino, recordista mundial dos 10.000 m e o último grande nome de uma famosa dinastia de finlandeses voadores. Ao vê-lo pela primeira vez, Zátopek ajoelhou-se e tocou-lhe as pernas em sinal de admiração.
Naquele mesmo ano veio a primeira vitória internacional, nos 5.000 m, em Berlim. Ver que podia correr entre os melhores do mundo encorajou-o a treinar mais forte e a inovar mais. Decidiu que, ao contrário da praxe da época, não pararia no inverno. Isto significava enfrentar o frio europeu e correr na neve.
Por falta de sapatos adequados, Emil encontrou nas botas militares uma solução prática. "Onde eu arranjaria 600 a 1.000 coroas naquela época para comprar sapatos de corrida, que nem eram bons para correr na neve e nas florestas onde eu treinava?", comentou ele muitos anos mais tarde. "Com as botas, eu podia passar sobre as pedras sem machucar os pés e, quando gastavam, era só trocar por outras no quartel. Do ponto de vista técnico, elas eram deficientes, mas protegiam os pés e obrigavam-me a alongar a passada na neve."
E com as botas começaram as repetições de 400 m em número crescente, na medida em que aumentava a sua resistência e a forma física. Muitas vezes ele sapateava na neve para endurecê-la e fazer uma pista oval de 400 m. Se estava escuro, carregava uma lanterna para clarear as suas passadas na floresta. Logo comentava-se que ele parecia sentir prazer com os treinos exaustivos. O seu lema era “a corrida como hábito”. Na prática, isso significava correr até quatro horas diárias, sobre qualquer tipo de terreno.
Estar no Exército oferecia possibilidades exóticas ao experimentador Emil, como ter acesso a máscaras contra gases. Devido aos filtros, respirar com elas exigia um esforço um pouco maior. Ele raciocinou que, se treinasse com elas, exigiria mais dos pulmões. Sem a máscara, acreditava, respiraria com mais facilidade e poderia melhorar o seu desempenho. Abandonou logo a ideia. Mas, naquela fase, o seu treinamento chegou a incluir dias de corrida com botas, máscara e mochila militar nas costas.
Zátopek possuía grande motivação, que o fazia descobrir reservas insuspeitadas de energia. Para ele, um bom desempenho era apenas o resultado dos treinos em condições adversas. A sua filosofia era treinar tão forte quanto possível para que a competição parecesse fácil.
O treinamento de inverno deu frutos. Em sua primeira prova de 5.000 m na temporada de 1947, espantou o mundo com um tempo de 14min8,2s, então a segunda melhor marca de todos os tempos. Depois, em Helsinque, derrotou Heino em casa, nos 5.000 m, terminando o ano invicto e ranqueado como o primeiro do mundo naquela distância.
"Ao passar das botas para as sapatilhas, eu voava. Ganhei força nas pernas, mas é um método que pertence àquela época", afirmou Emil, numa entrevista, em 1995.
CAMISA VERMELHA
A sua estreia olímpica ocorreu em 1948, em Londres. Nessa época, ele já era tenente do Exército. “Depois de todos aqueles dias negros da guerra, os bombardeios, as mortes e a fome, o ressurgimento das Olimpíadas foi como se o sol nascesse de novo. Eu entrei na Vila Olímpica e, de repente, não havia mais fronteiras, nem barreiras. Apenas as pessoas se encontrando. Como foi agradável! Homens e mulheres que haviam perdido cinco anos de vida estavam de volta.”
Após mais um inverno treinando de botas na neve, ele estava em melhor forma ainda. Quando todos esperavam que ele corresse apenas os 5.000 m nos Jogos Olímpicos, Emil decidiu competir também nos 10.000 m, distância em que Heino era o favorito. Até então, ninguém havia disputado os 10.000 m e logo depois competido com sucesso nos 5.000 m, uma prova mais rápida. O plano foi considerado impossível.
O treinamento específico para a Olimpíada consistiu quase exclusivamente de repetições diárias de 5x200 m, seguidas de 20x400 m e mais 5x200 m, sempre com intervalos de 200 m trotando. Nos dez dias anteriores ao embarque para Londres, a carga diária de trabalho aumentou para 60x400 m.
Na Vila Olímpica masculina, manteve-se reservado, treinando e tocando o seu violão. A cerimônia de abertura aconteceu sob um sol escaldante. Porque a prova dos 10.000 m seria no dia seguinte, Zátopek recebeu ordem de não participar. Mas ele não perderia por nada aquela festa e insistiu em ir. Mandaram-no de volta à Vila, mas ele escondeu-se atrás da delegação dinamarquesa e reapareceu no gramado. Ao ser flagrado novamente pelos dirigentes, falou: "Agora não podem me mandar embora. O rei está olhando vocês". E ficou até o final.
Embora tivesse corrido os 10.000 m apenas uma vez naquele ano, com tempo 1,6 s acima do recorde mundial de Heino, ninguém acreditava, no Estádio de Wembley, que Zátopek pudesse chegar à medalha de ouro, devido a sua pouca experiência naquela distância. Para não ser surpreendido, ele traçou um plano. Colocou um colega na arquibancada com duas camisas. A branca seria erguida a cada volta em que o ritmo da prova estivesse mais veloz do que o recorde mundial. Porém, se a volta fosse corrida acima de 71 s, a camisa vermelha indicaria que era preciso reagir.

Zátopek lidera Mimoun
nas voltas finais
Durante as primeiras oito das 25 voltas a camisa branca foi erguida e Emil ficou no final do pelotão. Na nona, camisa vermelha! A reação foi imediata e na volta seguinte o tcheco liderava. Heino respondeu e tomou a ponta. Camisa vermelha! Nova investida de Zátopek. Desta vez Heino não reagiu e o tcheco disparou na liderança, correndo o mais rápido que podia. Após algumas voltas, ao perceber que não recebia mais combate, Emil gritou a um oficial: "Onde está Heino?" A sete voltas do final, o recordista mundial havia abandonado a prova.
Zátopek venceu os 10.000 m com uma vantagem de 47s, cerca de 300m, sobre o algeriano Alain Mimoun, que competia pela França. Conquistou a primeira medalha de ouro da Tchecoslováquia em Jogos Olímpicos e cravou um novo recorde olímpico, com 29min59,6s.
Desde o dia em que Emil Zátopek pisou a largada daqueles 10.000 m, as corridas de fundo nunca mais foram as mesmas, uma afirmação que não pode ser feita sobre nenhum outro atleta na história dos Jogos Olímpicos da Era Moderna.
NASCE O MITO
No dia seguinte começavam as eliminatórias para os 5.000 m. Ainda cheio de adrenalina da vitória consagradora, Zátopek, ao lado do sueco Eric Ahlden, disparou na liderança. Quando o sino avisou a última volta, ele corria em segundo. Ahlden acelerou. A diferença dos dois para o pelotão era tamanha, que Emil poderia ter caminhado os últimos 50 metros e ainda estar classificado entre os quatro que avançariam para a final. Mas deixou a emoção superar a razão, disparou atrás do sueco e quase passou-o na chegada. O tempo foi 30s mais rápido do que o dos vencedores das demais eliminatórias.
A final foi corrida dois dias depois, sob intensa chuva. Zátopek liderou as primeiras nove voltas. Nos 1.500 m finais, o belga Gaston Reiff assumiu a ponta, seguido pelo holandês Willi Slykhuis, deixando o tcheco em terceiro. Cansado dos 10.000 m e da imprudência cometida na eliminatória, Emil não teve pernas para responder ao ataque. A 300 m da fita, ele estava trinta metros atrás e parecia acabado.
Então, para o delírio das arquibancadas, reagiu de uma forma que a imprensa classificou de "fúria selvagem". Rapidamente foi engolindo a diferença que o afastava do líder, Reiff. Na reta final, Slykhuis havia ficado para trás e vinte metros separavam Zátopek do belga. De pé, a plenos pulmões, o público gritava a palavra que o mundo acostumar-se-ia a ouvir nos próximos anos: "Zá-to-pek! Zá-to-pek!"
A princípio, Reiff pensou que os aplausos eram para ele. Mas logo foi alertado que Zátopek se aproximava. Ao olhar para trás, viu a Locomotiva Humana vindo em disparada sobre ele. Num último esforço, Reiff acelerou e venceu Zátopek por dois décimos de segundo, o equivalente a uma passada. Os dois atletas bateram o recorde olímpico. Essa demonstração de superação – resultado não da sua velocidade, mas da determinação e da força de vontade – tornou-o admirado pela multidão. Zátopek foi mais aplaudido e abraçado do que o próprio campeão.
Embora sempre um cavalheiro ao falar, pela forma como recordava aquela prova na velhice, com os olhos fixos no nada, sabia-se que o grande campeão nunca se conformou com aquela derrota para Reiff, um dos seus maiores adversários.
Até a primeira vitória olímpica, a grande imprensa mundial não conhecia Emil. Ao reparar na forma como ele corria, o jornalista Red Smith, dos Estados Unidos, escreveu: "Mesmo após terem esquecido os outros eventos que viram no estádio, os espectadores ainda acordarão gritando no meio da noite quando Emil, o Terrível, adentrar os seus sonhos contorcendo-se, gemendo e grunhindo em horrível estado de dor". Depois de chamá-lo de "o mais apavorante espetáculo de horror desde Frankestein", completou: "Esse tcheco magro e cheio de caretas, correndo como um zumbi, fez de si próprio o garoto vedete dos Jogos de Londres".
Seus colegas de equipe tentaram fazê-lo adotar uma forma mais suave de correr: "O atletismo é o cultivo do movimento natural, não isso", argumentavam. "Estou interessado na minha chegada, não em ser bonito", era a resposta que recebiam.
A partir dali, o tcheco voador ficou popular não apenas pelas suas vitórias espetaculares, mas também pela forma desesperada como chegava a elas. Uma das descrições mais engraçadas foi feita por David Miller, do jornal inglês The Telegraph: "Zátopek lembrava um homem agonizante lutando com um polvo sobre um esteira rolante". Em 1997, refletindo sobre tais fatos, Emil comentou numa entrevista à Runner's World Daily: "Sei que algumas vezes eu parecia um cachorro louco correndo, mas não importava. Havia recordes a bater". O que poucos notavam era a sua passada perfeita.

Dana
Dois meses após os Jogos Olímpicos, Zátopek casou com a arremessadora de dardo tcheca Dana Ingrova, sétima colocada em Londres e nascida na mesma data que ele. Ambos haviam-se conhecido numa competição de atletismo naquele ano. Emil propôs casamento em Londres e os dois compraram lá as alianças. O matrimônio foi realizado no dia do aniversário de ambos. Para o seu alívio, antes da cerimônia, Dana foi avisada pela mãe do noivo que ele era quatro horas mais velho do que ela. Na família da noiva era tradição sempre casar com um homem mais velho do que a mulher.
Emil havia jurado a si mesmo que nunca casaria se não encontrasse uma mulher que tivesse o mesmo amor que ele pelo atletismo. Dana provou ao longo da vida ser esta pessoa.RECORDE SOB ENCOMENDA
O primeiro recorde mundial veio no início da temporada de 1949, nos 10.000 m, durante o Campeonato das Forças Armadas, em Ostrava, na Tchecoslováquia. "Na altura dos 6 km, já sem adversários, fui avisado pelos alto-falantes que estava em ritmo superior ao recorde de Heino. A torcida começou a pedir o recorde. Eu senti-me forte e corri para 29min28,2s", contou depois Zátopek. Ele quebrou a marca de Heino em 7,2 s e tornou-se o primeiro não-finlandês recordista dos 10.000 m desde 1921.
Certos de que aquele tcheco tinha segredos de treinamento, os soviéticos convidaram-no com Dana para um período de treinos às margens do Mar Negro antes da temporada daquele ano. Assim puderam filmá-lo e estudar os seus métodos, que passaram a ser copiados por todos os fundistas soviéticos. Zátopek não se fez de rogado e martelou quase diariamente pesadas séries de 20x200 m seguidas de 20x400 m, sempre com 200 m trotando de intervalo.
Ao longo de sua carreira, a Locomotiva Humana estabeleceu 18 recordes mundiais em variadas distâncias (veja a lista no final). Até os dias de hoje, somente Nurmi e o sueco Werner Hardmo, ambos com 22 recordes mundiais, quebraram o cronômetro mais vezes do que Zátopek. Tais façanhas valeram-lhe também apelidos como: o Tcheco Voador, o Pai do Treinamento Intervalado, o Tcheco Imortal e o Grande Emil.
O seu rosário de recordes mundiais iniciou em 1949 e estendeu-se até 1955. Muitos deles ocorreram em competições oficiais. Mas dois foram encomendados pelo governo comunista. 

Zátopek
Acostumada a dominar o mundo das corridas de fundo nos últimos 40 anos, a Finlândia exigiu reação. No dia 1 de setembro de 1949, Heino baixou a marca de Zátopek em 1 s. Ao saberem da notícia, os superiores do tenente Emil pediram que ele tentasse recuperar o recorde "para a honra do povo tcheco".
"Deem-me três semanas de folga para treinar", foi a resposta. O plano era simples: duas semanas de treinos intensivos e uma leve, para descansar. Ali, pela primeira vez, Zátopek correu 40x400 m, com 200 m trotando nos intervalos. Cerca de 35 anos depois, o inglês Sebastian Coe, campeão olímpico dos 1.500 m, em 1988, consagrar-se-ia reeditando este mesmo esquema.
A 23 de outubro ele triturou o recorde de Heino, correndo os 10.000 m seis segundos mais rápido do que o finlandês, em 29min21,2s. O segundo colocado chegou quase três voltas atrás. Apesar de várias tentativas, Heino nunca mais conseguiu recuperar o recorde mundial.
VISITA A NURMI
Em 1950, novo recorde nos 10.000 m. Desta vez com um sabor especial. O palco foi Turku, na Finlândia, cidade natal de Nurmi. Após uma arrasadora atuação de 29min2,6s, em que podou inacreditáveis 18,6 s do recorde mundial – igualando feito semelhante de Nurmi em 1921, e nunca mais repetido até hoje – Zátopek esqueceu o seu agasalho na grama ao lado da pista. Quando voltou mais tarde para buscá-lo, foi notado pela multidão, que irrompeu numa longa ovação, em pé. Entre os que o aplaudiram entusiasticamente estava Viljo Heino. A emoção daquele momento acompanhou Zátopek até o fim da vida: ele sempre ficava com os olhos molhados ao recordá-lo.
Como estava na cidade de Nurmi, o seu ídolo maior, Emil resolveu visitá-lo. Ao chegar no escritório da empresa de construção que Nurmi dirigia, foi informado que ele só estaria de volta após as 14 h. Quando retornou naquela tarde, disseram-lhe que Nurmi não voltaria naquele dia. Desapontado, Zátopek tentou um explicação: "Ele é de um país capitalista e eu de um sistema comunista, anti-capitalista, onde às vezes o esporte é usado como propaganda. Não me surpreende que tenha evitado o encontro".
De temperamento reservado, econômico nas palavras e nos sorrisos, Nurmi e o expansivo Zátopek nunca se encontraram.
FENÔMENO
Mas a temporada de 1950 ainda não acabara. Emil tinha pela frente o Campeonato Europeu de Atletismo, o mais importante acontecimento atlético mundial da época depois dos Jogos Olímpicos. Duas semanas antes da competição, ele foi hospitalizado por intoxicação alimentar ao comer carne de ganso estragada. Enfraquecido, os médicos recomendaram-lhe repouso total.
Mesmo sem treinar há duas semanas, o obstinado Zátopek embarcou para Bruxelas. Venceu os 10.000 m em 29min12s, com uma inacreditável dianteira de 69 s. Nos 5.000 m travou um duelo com Reiff, que corria em casa, até a última volta. Então disparou e deixou o belga 23 s atrás perante a sua incrédula torcida, cruzando com 14min2s. Os tempos de ambas as provas eram os segundos mais rápidos de todos os tempos. O desempenho extraordinário valeu-lhe um novo apelido: Fenômeno.
A cada novo sucesso, Emil sentia-se mais confiante para testar os limites do seu corpo. Ele acreditava que a sua força e energia só aumentavam através de desafios constantes. A sua férrea força de vontade, pensava ele, o impediria de ser vítima de supertreinamento, um problema pouco conhecido na época.
E, assim, em 1951, o tcheco voador aumentou a carga de treinamentos para um volume e intensidades consideradas humanamente imposssíveis de aguentar. Naquele ano, o seu treino principal iniciava com 20x200 m, seguidos de 40x400 m e mais 20x200 m, sempre intercalados de 200 m trotando. Isto significa 24 km em alta intensidade, intercalados por 16 km trotando, o que totaliza 40 km corridos sem parar em uma única sessão. E sem beber qualquer líquido, o que ele reconheceu anos mais tarde ser um erro.
Certa vez, ao sair para treinar, Dana cobrou-lhe ajuda para lavar a roupa. Sem perder o bom-humor, Zátopek praticou duas horas de corrida estacionária, de botas, sobre as roupas na banheira. Quando voltou das compras, Dana encontrou a espuma escorrendo pela escada. E gritou: "Emil, a espuma já invadiu a sala e a cozinha!" Mas admitiu que nem mesmo ela jamais conseguira branquear as camisas daquela forma. "Comecei a correr, pensei em outras coisas e esqueci da água e do sabão", contou muitos anos depois Zátopek ao jornalista Kenneth Moore, da revista Sports Illustrated, quarto colocado na maratona olímpica de 1972.
Tanto treino resultou na conquista do recorde mundial da hora de uma forma assombrosa. No Campeonato Nacional das Forças Armadas, em Praga, ele abriu vencendo os 10.000 m e seguiu correndo sozinho para quebrar o recorde de Heino. Cobriu 19.558 m em uma hora e prosseguiu até completar 20 km em 1h1min15,8s, também em tempo recorde.
Imediatamente anunciou que dali a duas semanas tentaria baixar de 1 h em 20 km. E assim fez. Os primeiros 10 km foram cobertos em inacreditáveis 29min53s, seguidos de mais outros 10 km em 29min58s. Até então, além de Zátopek, apenas cinco atletas haviam baixado de 30 min em 10.000 m. E ele o fez duas vezes seguidas, sem intervalo. A partir dali, o mundo passou a esperar o impossível do Fenômeno.
Junto com aquele recorde foram quebrados mais dois: o das dez milhas e o da hora, melhorado para 20.052 m. As autoridades médicas começaram a estudar aquela extraordinária máquina voadora. Pouco antes da largada, verificaram que a sua frequência cardíaca era de 58 sístoles/min, subindo para 168 síst/min na chegada. Quatro minutos após, já havia caído para 108 síst/min, depois 98 síst/min, aos seis minutos. Em três horas ela voltara para 52 síst/min.
"VOU VIAJAR COM ELE"
O ano olímpico de 1952 era de grandes expectativas. Mas, doente, Zátopek não teve qualquer atuação excepcional na temporada. Para prestigiar uma competição, seis semanas antes dos Jogos correu com uma virose e a sua saúde piorou. Mesmo assim, campeão olímpico e recordista mundial dos 10.000 m, o Fenômeno, então já o maior nome do atletismo mundial, não podia ser descartado como um dos favoritos.
Pelo seu ato impensado, quase foi cortado da delegação, por ordens médicas. Um gânglio inflamado no pescoço levou os médicos a recomendar a interrupção dos treinos por três meses e a sua não participação em Helsinque. Emil, é claro, recusou-se a aceitar tais recomendações. "Um verdadeiro desportista sabe o que se passa dentro dele", justificaria mais tarde. Resolveu curar-se com chás e limões frescos. Em recuperação, competiu em Budapeste e Kiev, onde venceu com tempos ruins, causando apreensão nacional.
Para Helsinque, o tcheco voador seguiu diariamente uma rotina de treinos composta de 5x100 m, seguidos de 20x400 m e mais 5x100 m pela manhã, com outra sessão idêntica à tarde.
Próximo ao embarque da delegação tcheca para Helsinque, Zátopek soube que o governo comunista de seu país não queria enviar para os Jogos Stanislav Jungwirth, um jovem e talentoso corredor de 1.500 m – que viria a ser recordista mundial em 1957 – cujo pai, anti-comunista ferrenho, estava preso por razões políticas. “Se Jungwirth não for, cortem o meu nome também”, disse ele aos dirigentes. Estes, temendo uma repercussão internacional negativa, tentaram convencê-lo de que houvera um engano: “Não podemos admitir que um atleta excelente como Jungwirth fique em casa”, afirmaram. “Ele viajará no próximo avião”. E Emil, firme: “Então vou esperar e viajar com ele”. Pegou os seus pertences e foi para o estádio treinar, enquanto o restante da equipe de atletismo partia sem eles. Dez mil pessoas esperavam Zátopek no aeroporto de Helsinque e ficaram frustradas que o ídolo das pistas não desembarcou com o grupo. Os jornais europeus começaram a falar sobre o assunto. Três dias depois, ele e Jungwirth voaram juntos para a Olimpíada. Mas foi avisado que, quando voltasse, seria punido por "tentar desestabilizar o espírito de equipe da delegação".
Além de atleta consagrado, Zátopek tinha também a habilidade de transformar adversários em amigos. Fluente em sete idiomas, talento que continuou a aperfeiçoar ao longo da vida, ele era uma das atrações da Vila Olímpica. Mantinha animados diálogos simultâneos com atletas de diversos países e quebrava a barreira idiomática entre eles, frequentemente servindo de intérprete.
Outra característica sua era não omitir informações. Perguntado sobre treinos, respondia honestamente e trocava impressões sobre o seu plano de treinamentos e o do seu interlocutor.
Certa vez, um jornalista inglês acordou-o ao bater à porta do seu quarto na Vila Olímpica à meia-noite, em busca de uma entrevista. Zátopek pacientemente conversou com ele por vinte minutos. Ao despedirem-se, descobriu que o jornalista não tinha onde dormir naquela noite. Os dois dividiram a mesma cama.
ZATOPEQUICES
Emil estava excitado por competir numa Olimpíada na Finlândia, país de origem de tantas legendas do atletismo mundial. Especialmente Nurmi, o seu ídolo maior, que ele vira entrar correndo no estádio com a tocha e acender a pira olímpica.

Zátopek e Mimoun
lideram os 10.000 m
Em sua primeira prova em Helsinque, no dia 21 de julho, a fama precedeu-o. Nos 10.000 m, foi colocado na terceira fila. Os adversários apressaram-se em ceder-lhe lugar na frente. Emil foi logo ultrapassado, mas retomou a ponta na nona volta e travou um breve duelo com o inglês Gordon Pirie, que adotara como tática segui-lo em todos os movimentos. Pelo aspecto agonizante do tcheco e a passada fluida de Pirie, a torcida inglesa teve a momentânea ilusão de que ele poderia vencer. Porém, nos 5 km finais, a luta pela liderança resumia-se a Zátopek e o algeriano Alain Mimoun. Os corredores que ficavam uma volta atrás davam-lhe passagem por dentro, em sinal de respeito.
O tcheco voador rompeu a fita com 29min17s, um novo recorde olímpico e 15 s à frente de Mimoun. Pirie foi sétimo. Em
Helsinque, Zátopek estava escalado para correr apenas os 10.000 m e a maratona. Numa atitude tipicamente sua, resolveu participar também dos 5.000 m. Aos que ficaram surpresos, explicou: "Tenho muito tempo entre os 10.000 m e a maratona. Precisava arranjar alguma coisa para fazer". A imprensa consumia avidamente as suas frases de efeito e o que chamavam de "zatopequices".
Dois dias depois, ele correu a eliminatória dos 5.000 m. Com folgada liderança, diminuía o ritmo, esperava o pelotão aproximar-se e encorajava os adversários em seu próprio idioma. Na última volta, acenou para os quatro atletas que vinham atrás dele aproximarem-se e cruzou a linha conversando com o sueco Bertil Albertsson.
UM ROSTO EM AGONIA
Na final, no dia 25 de julho, mais uma vez a Locomotiva Humana não era favorita ao ouro. Estava alinhado ali o então melhor grupo de especialistas em 5.000 m de todos os tempos. Além dos três medalhistas dos 10.000 m, havia ainda o belga Gaston Reiff, campeão olímpico de 1948, o alemão ocidental Herbert Schade, destaque da temporada de 1951, o veloz inglês Christopher Chataway e vários promissores atletas do pós-guerra. Todos eles com maior velocidade final do que Emil.

Schade e Chataway
atacam Zátopek 
Era preciso uma estratégia diferente dos 10.000 m e o tcheco voador optou por ficar no bolo até o sino anunciar a volta derradeira. Chataway largou na liderança, seguido por Schade. Emil deixou-se ficar em penúltimo nas primeiras três voltas, seguido por Pirie, que decidira segui-lo outra vez em todos os movimentos. Na quarta volta, avançou para o pelotão da frente. A liderança foi sendo alternada no decorrer da prova. Na sétima volta, Zátopek achou que era a sua vez de puxar. Virou-se para um surpreso Schade e disse, em alemão: "Herbert, corre duas voltas comigo na frente". O alemão reagiu pegando a ponta, seguido pelo tcheco. O gesto inesperado quebrou o ritmo do pelotão, que ficou reduzido a Schade, Reiff, Mimoun, Chataway, Zátopek e Pirie. Seguido por Chataway, Pirie tomou a ponta, que foi logo reconquistada por Emil. A liderança alternou-se rapidamente até os 4 km, quando Reiff abandonou a prova.
“Quando começou a última volta" – contou o tcheco voador – "arranquei na frente. E, pelo barulho do estádio, achei que tinha 10 ou 15 m de vantagem. Fiquei desanimado quando fiz a curva e vi que Chataway, Schade e Mimoun estavam mais rápidos, já na minha frente." Em quarto lugar e vários metros atrás, ele pensou: "Para eles, ouro, prata e bronze. E para mim? Uma batata! Nunca!" A 200 m da chegada, alcançou os líderes. "Notei que estavam fatigados, no fim das suas forças. Reagi, mas eles também aceleraram." O esforço foi suficiente para passar Mimoun. Mas Schade e Chataway ainda lideravam. Zátopek mais uma vez recrutou forças superiores, forjadas em seus treinos excruciantes, e passou os dois a pouco mais de cem metros da chegada. Depois de colidir com Mimoun, Chataway tropeçou na borda da pista e caiu, recuperou-se e chegou em quinto, meio metro atrás de Pirie.
Mimoun ainda veio de trás e ultrapassou Schade a 90 m da fita, no que é considerada até hoje a mais emocionante final olímpica dos 5.000 m de todos os tempos. O público, em pé, urrava o nome do deus do estádio: "Zá-to-pek! Zá-to-pek!" Ele venceu por uma margem de quatro metros e o tempo, 14min6,6s, era o novo recorde olímpico.

Na curva final, Zátopek lidera Mimoun e Schade.
Ao fundo, Chataway caído.
A última volta foi coberta em 58,1 s e os 200 m finais em 28 s. "Zátopek não é humano em seus feitos", comentou depois Chataway, que caiu exausto na chegada. “Foi a melhor chegada que já fiz e contra grandes rivais. Eu tinha calculado que venceria na última volta, mas, quando três deles me passaram, pensei que tudo estava perdido. Você precisa saber correr e guardar forças para o final”, ensinou ele mais tarde.

A fotografia de Zátopek liderando Mimoun e Schade na entrada da reta final, com o seu rosto em agonia, tornou-se o símbolo dos Jogos de Helsinque e é, até hoje, uma das mais famosas da imprensa esportiva mundial.
TRÍPLICE COROA
Por causa do horário da prova de dardo, na tarde daquela memorável vitória, a sua mulher, Dana, não viu os 5.000 m. Sentada no vestiário do estádio olímpico com uma toalha sobre a cabeça, ela tentava com todas as forças concentrar-se na prova de arremesso do dardo e não pensar no que estava acontecendo na pista. Nervosa, recusou-se até a olhar as voltas derradeiras. Soube do resultado por um treinador soviético. “Assim que entrei no estádio, todos vieram dizer-me que Emil tinha vencido de forma admirável. Naquele momento, tudo o que eu queria era vencer."
No momento da premiação dos 5.000 m, Dana entrava na pista para o seu primeiro arremesso. "Usei toda a minha força e decisão no primeiro lançamento. O painel mostrou a marca de 50,47 m. Tinha melhorado em dois metros a minha melhor marca e estabelecido um novo recorde olímpico, que ninguém conseguiu superar até o fim da competição.” O feito foi comemorado por Dana com uma cambalhota na grama. Ao posar para fotografias ao lado dela, Emil brincou com a imprensa: "No momento, a contagem de medalhas de ouro na família Zátopek está 2 a 1. Para restaurar o prestígio, vou tentar melhorar a contabilidade na maratona". Nas ruas, o povo finlandês referia-se a eles como "o casal conto de fadas de Helsinque".
Dois dias depois, 27 de julho, chegava a hora da maratona. Corrê-la foi uma decisão pessoal de Emil, tomada na véspera dos Jogos. Mais uma zatopequice. O técnico-chefe da equipe tcheca de atletismo tentou em vão fazê-lo mudar de ideia, alegando que ele não conhecia a prova, os seus macetes, o ritmo e nem havia treinado para ela.

Os quilômetros finais
da maratona
 "Pessoal, hoje nós morreremos um pouco", brincou Zátopek com os atletas que se preparavam para a largada. Depois, procurou Jim Peters, da Inglaterra, o recordista mundial e o favorito da prova, com quem nunca havia falado. Só sabia o seu número, por tê-lo visto no jornal naquela manhã. Encostou nele, apresentou-se, desejou-lhe boa sorte – o inglês não respondeu – e por ali ficou. Zátopek jamais havia corrido a maratona e não sabia que ritmo imprimir à prova. Acompanhando o favorito teria um parâmetro. "O recorde nos 20 km um ano antes mostrou-me que eu era melhor nas distâncias acima de 10 km, mas eu não tinha experiência", explicou ele. 
De olho no tcheco, Peters imprimiu um ritmo forte desde o início e distanciou-se 20 s do pelotão. No quilômetro 15, Zátopek e o sueco Gustav Jonsson encostaram no líder. "Desculpe-me, eu nunca corri uma maratona antes, mas o ritmo não está muito forte?", perguntou a Locomotiva Humana a Peters. "Não, está lento", rebateu o inglês, que viu incrédulo Zátopek acelerar e convidá-lo a irem juntos. Aquele tcheco nos seus calcanhares quebrou o ritmo de Peters, que começou a ter cãibras no quilômetro 21 e abandonou a prova 12 km depois, em quarto lugar. Caiu exausto na sarjeta e saiu de maca.

Dana dá o beijo da vitória
Jonsson, o eventual terceiro colocado, acompanhou Emil até o quilômetro 27, quando começou a ficar para trás. O vento contra, a solidão da prova, a falta de hábito de correr no asfalto e a inexperiência minavam as forças do Fenômeno, que se recusou a beber água durante o percurso, porque nunca havia testado aquilo em treino. E também porque temia que tivesse de pagar pelas bebidas, frutas e chocolates oferecidos aos competidores. Ele até pensou em desistir. "A única coisa que eu via ao longe era a torre com a chama olímpica. Decidi correr para ela", declarou depois aos jornais.
Com a proximidade do estádio, a multidão aumentou e encorajava-o a prosseguir. Nos últimos quilômetros, foi seguido por ciclistas, com os quais gracejava, e recebia tapinhas nos ombros dos policiais que guardavam o percurso. Zátopek cruzou a chegada com 2h23min3,2s, sob estrondosa ovação, nenhum adversário à vista e dono de mais um recorde olímpico. Já tinha ganho um beijo da mulher e tirado as sapatilhas ensanguentadas quando, dois minutos e meio depois, chegou o segundo colocado, o argentino Reinaldo Gorno. “Entrei no estádio com três vitórias olímpicas e, para mim, parecia que as palmas eram infinitas. Todos estavam aplaudindo. Foi um final lindo de uma corrida olímpica”, lembrou ele. “Fiquei sem poder andar direito por uma semana, de tanto esforço, mas foi a emoção mais fantástica que já conheci.” Todavia, não deixou de acrescentar: "A maratona é uma prova muito monótona".
À revista Athletics Weekly, Peters – oitavo colocado nos 10.000 m em 1948, mais de uma volta atrás do tcheco voador – confessou que dissera a Zátopek que o ritmo estava lento por brincadeira. "Eu tinha confiança na vitória. Sou o recordista mundial e ele estava cansado por estar competindo três vezes numa semana. Ninguém acreditava que ele pudesse vencer outra prova."
Na cerimônia de encerramento, a multidão cantava: "Zátopek! Adeus, Zátopek!" Muitos anos depois, o campeão confessaria: "Foi muito triste. Eu sabia que uma atuação daquelas só acontece uma vez na vida. Não haveria repetição".
A tríplice coroa das corridas de longa distância, feito considerado impossível na época, nunca mais foi repetida por qualquer atleta.
Após a vitória na maratona, o chefe do Estado Maior do Exército tcheco encontrou sobre a sua mesa de trabalho o processo de punição de Zátopek. Depois de examiná-lo atentamente, perguntou à secretária: “Existem dois Emil Zátopek?” Quando ouviu “Não, só um”, rasgou o papel e jogou-o no lixo. "Naquele tempo, nem o presidente da Tchecoslováquia tinha mais poder do que Zátopek", lembra Jan Jirka, funcionário da Federeção Atlética Tcheca, que acompanhou-o em várias viagens internacionais.
ADHEMAR FERREIRA DA SILVA
Os Jogos de Helsinque produziram ainda outro herói: o triplista brasileiro Adhemar Ferreira da Silva. Na tarde de 24 de julho, em seis saltos, Adhemar quebrou quatro vezes o recorde mundial do salto triplo – então de 16,01 m – dele mesmo. A marca passou para 16,05 m, 16,09 m, 16,12 m e, finalmente, 16,22 m.
País de larga tradição e cultura atlética, os finlandeses souberam apreciar devidamente a elegância, a velocidade, o talento e o feito nunca repetido daquele atleta longilíneo que mais parecia voar do que saltar. A cada novo recorde, as arquibancadas trepidavam com a torcida, em pé, ovacionando a plenos pulmões o senhor do estádio: "Da Sil-va! Da Sil-va!" Ao assombroso feito atlético somava-se, para a maioria dos finlandeses, a supresa de ver, pela primeira vez, uma pessoa de pele escura.
No pódio, ao receber a medalha de ouro, novos aplausos de pé e os gritos: "Da Sil-va! Da Sil-va!". A empolgação da torcida era tamanha que, após receber as flores, ouvir o Hino Nacional e acenar repetidamente ao público, um árbitro sugeriu que ele dessa uma volta trotando pela pista em agradecimento. Estava criada a volta olímpica.
Adhemar só não foi o maior ídolo daquela Olimpíada por causa de Emil e Dana. O próprio Zátopek usou a volta olímpica em Helsinque. Muito sociáveis e poliglotas, além de mitos daqueles Jogos, a aproximação do tcheco e do brasileiro foi natural e imediata. Uma amizade fraterna que durou por toda a vida. Fluente em sete idiomas, inclusive o finlandês, tocando violão e cantando, Adhemar formou com Emil uma dupla ao redor da qual agrupava-se uma grande roda de atletas de diversos países na Vila Olímpica, sempre em animadas conversas que os dois encarregavam-se de traduzir para garantir a participação de todos.
Após encerrar a carreira, em 1960, com 33 anos, dono de setes recordes mundiais e dois títulos olímpicos (1952-1956), Adhemar, tal como Zátopek, era convidado de honra em diversas competições internacionais. Nestas oportunidades, os dois reeditavam a dupla animada dos Jogos de Helsinque e Melbourne. Eles mantiveram-se em contato, por carta e telefone, até a morte do tcheco voador.  
OUTRO RECORDE ENCOMENDADO
O ano de 1952 ainda não terminara para o Grande Emil. Em plena forma, atacou o recorde mundial dos 30 km, que quebrou por 3min30s. Na passagem, ainda arrebatou os recordes mundiais das 15 milhas e dos 25 km. O Fenômeno encerrou o ano recordista mundial de todas as distâncias dos 10 km aos 30 km.
Em 1953, o objetivo era melhorar o recorde dos 10.000 m, dele mesmo. Doente parte da temporada, o tcheco voador só atingiu o seu objetivo em novembro. Cravou 29min01,6s, diminuindo a marca anterior em 1 s. Na passagem, ainda melhorou o recorde mundial das 6 milhas. O outro ponto alto da sua temporada foi derrotar a nova estrela russa dos 5.000 m e futuro campeão olímpico dos 5.000 m e 10.000 m em 1956, Vladimir Kuts.
Em dezembro, Zátopek veio ao Brasil correr a São Silvestre, em São Paulo. Venceu com uma diferença de 500 metros e quebrou o recorde do percurso.
Senhor absoluto de todos os recordes dos 10 km aos 30 km, Emil – agora com 32 anos – nunca fora dono da melhor marca dos 5.000 m. Em 1954, a honra pertencia havia doze anos ao sueco Gunder Hägg, com 13min58,2s. Mais uma vez os superiores de Zátopek encomendaram-lhe um recorde mundial. A resposta foi a mesma: três semanas livres para treinar.
Desta vez ele escolheu ficar só na floresta, treinando em terreno macio. Durante duas semanas correu diariamente 100x400 m, com 150 m de intervalo trotando: 50x400 m pela manhã e outra sessão idêntica à tarde. Com o aquecimento e o relaxamento, eram cerca de 50 km por dia, um feito talvez nunca igualado na história do treinamento esportivo.
Após uma semana de treinos leves, embarcou para Paris. Mas o ataque à marca de Hägg não ocorreu como previsto. Tendo como adversários um grupo de atletas franceses e iugoslavos sem expressão, os primeiros 2 km foram corridos no ritmo certo. No terceiro quilômetro, Zátopek estava 2,5 s fora do tempo. Nos 4 km já eram 3 s. Era preciso uma reação fenomenal. Nos 1.000 m decisivos, o Grande Emil lançou mão das espantosas reservas interiores que o impeliam naqueles treinos descomunais e correu 6 s mais rápido do que o quilômetro anterior. O recorde mundial, agora de 13min57,2s, era seu por 1 s.
Imediatamente voou para Bruxelas, onde atacou os 10.000 m no dia seguinte. Correndo sozinho a partir dos 5 km, tornou-se o primeiro homem a quebrar a barreira dos 29 min, marcando 28min54,2s. Depois descobriu-se que a pista possuía 10.001 m.
O Campeonato Europeu daquele ano, em Berna, trazia grandes desafios. Uma nova fornada de bons corredores ameaçava a hegemonia do Fenômeno. Nos 10.000 m ele provou que ainda era o melhor ao derrotar folgadamente, com 28min58s, o polonês Jozsef Kovacs, um astro emergente das pistas. Já nos 5.000 m a história foi outra. Kuts venceu com um novo recorde mundial – 13min56,6s, destronando Zátopek da marca. O inglês Christopher Chataway chegou em segundo e a Locomotiva Humana em terceiro, com 14min10,2s.
Antes do final da temporada, o Fenômeno correu os 5.000 m em 13min57s, mas nunca mais recuperou o recorde da prova. 
Nos 10.000 m, porém, a contabilidade era outra: entre 1948 e 1954, foram 38 vitórias em 38 provas, com cinco recordes mundiais.
MELBOURNE
A temporada de 1955 mostrou a ascensão de novos astros das pistas. Kuts, Pirie e Chataway dividiam a supremacia dos 5.000 m, com Kuts fazendo dobradinha nos 10.000 m. Peters baixara novamente o recorde da maratona, então uma prova bem menos disputada do que atualmente.
Por ser um ano pré-olímpico, o Fenômeno resolveu repetir a estratégia que funcionara em 1952. Partiu para a quebra de alguns recordes mundiais como fundamento para a temporada seguinte. Em outubro, melhorou a marca dos 25 km para 1h16min36,4s. Na passagem, bateu também o recorde das 15 milhas.
O ano olímpico de 1956 chegou com o mundo esportivo contemplando novas técnicas de treinamento. Uma delas era o uso de halteres, que o tcheco voador recusava-se a usar. Nas pistas, Kuts inovava com sucesso. Como tantos outros, durante anos copiou os métodos de Zátopek com resultados pouco expressivos. Então, decidiu reduzir as quilometragens. Acrescentou também repetições em distâncias maiores e encontrou o rumo ao degrau mais alto do pódio.
Novamente o espírito inovador do Fenômeno prevaleceu. "Estava na moda trabalhar com pesos e ele costumava correr comigo nas costas”, lembrou Dana, numa entrevista, em 1995. “Quando não estiver carregando você, voarei como um pássaro”, dizia-lhe o marido. Mas o resultado foi uma hérnia inguinal. Segundo Dana, “fruto da teimosia e de seus métodos peculiares de treinamento”, tão dolorida que necessitou ser removida um mês antes dos Jogos Olímpicos, com a proibição médica de correr por dois meses.
Mesmo assim, de forma limitada, ele retomou os treinos no dia seguinte à saída do hospital. Como até trotar era doloroso após a cirurgia, cancelou a sua participação nos 5.000 m e 10.000 m, privando o mundo de vê-lo digladiar-se com Kuts, o eventual medalha de ouro nas duas provas. Kuts chegara a Melbourne com apenas duas derrotas internacionais: para Zátopek, em 1953, e Pirie, naquele ano, ambas nos 5.000 m. Pirie ficou com a prata nos 5.000 m naqueles Jogos. 
A viagem a Melbourne foi uma espécie de recompensa e despedida. Na maratona, Zátopek correu mais uma vez contra Alain Mimoun, que já tinha uma coleção de seis medalhas de prata obtidas em Olimpíadas e campeonatos europeus nos quais Emil havia levado o ouro. A certa altura da prova, Zátopek disse: “Alain, vai! Hoje é o teu dia!” O incrédulo argelino ainda acompanhou o seu ídolo e amigo por algum tempo, até ter a certeza de que ele não estava mesmo em seus melhores dias e acelerou. Mimoun venceu a maratona e conseguiu a sua primeira medalha de ouro olímpica e a única da França naqueles Jogos. Também soube, naquele momento, que a sua mulher dera a luz a uma menina, mas a equipe mantivera o fato em segredo até terminar a prova, para não o perturbar. Exultante, esperou por Zátopek e gritou-lhe a novidade: “Emil, tornei-me pai!” A resposta do adversário exausto foi um abraço e um beijo na face.
"És um herói, Alain. Depois de tantas medalhas de prata, encerras a carreira com uma de ouro", saudou-o o Fenômeno. Após tantas derrotas, o seu maior adversário, ao invés de inveja, demonstrou-lhe respeito. Aquelas palavras valeram para Mimoun mais do que a medalha.
A colocação de Zátopek na maratona foi “um mero sexto lugar”, na opinião de Dana. Quanto a Mimoun, encerrou a carreira e recebeu a direção de um instituto de esportes, presente do presidente Georges Pompideau.
Em Melbourne, Adhemar Ferreira da Silva inscreveu definitivamente o seu nome entre os ungidos pelos deuses do Olimpo. Venceu novamente o salto triplo, melhorando a sua marca olímpica para 16,35 m. Entre os primeiros a saudá-lo estava Zátopek. A gentileza foi retribuída. Adhemar aguardava a chegada do amigo no estádio.
MULHER DE FIBRA
Depois de Melbourne, Emil competiu mais uma temporada. Recuperou a boa forma, mas os anos de treinamentos exaustivos começavam a pesar e ficava cada vez mais difícil reproduzir as enormes cargas de trabalho com que acostumara-se. Após vencer uma corrida de cross-country em San Sebastian, na Espanha, resolveu retirar-se das competições em 1957, aos 35 anos de idade e doze de carreira internacional.
Com o mesmo entusiasmo dos treinamentos, o agora tenente-coronel passou a treinador e a lecionar Educação Física no Exército. A carreira de técnico foi breve. O herói das pistas não via em seus pupilos a fibra, a dedicação e a vontade de vencer que o caracterizavam. Mas ele manteve-se correndo por recreação. Entre outras zatopequices, divertia-se indo às compras correndo e saltando os bancos das praças por onde passava, para a alegria da imprensa, que adorava fotografá-lo assim.

Dana Zátopeková,
campeã olímpica em 1952
Dana também não se saiu bem nos Jogos de 1956 e, quando Emil abandonou as competições, esperou que a sua mulher fizesse o mesmo com o dardo. Achava que, com 35 anos de idade, ela já estava “velha” para continuar.
Ela, porém, tinha outros planos. Campeã europeia em 1954, queria ir a mais uma Olimpíada. Treinou como nunca. Seu plano de treinamento, programado até a fase final dos Jogos, ficava pendurado na porta da cozinha, onde ela podia vê-lo a todo momento. O resultado dessa dedicação intensa foi a medalha de ouro no Campeonato Europeu de Atletismo de 1958 e a de prata nos Jogos Olímpicos de Roma (1960), aos 38 anos de idade, com 53,78 m, marca superior à de Helsinque. Dana provou que fora feita da mesma fibra que o seu marido.
Mesmo sem competir, Emil mantinha o status de ídolo nacional. Ao lado de Dana, com quem dava-se muito bem, compunha o casal mais popular do país. No jardim da casa dos dois, em Praga, há uma escultura em mármore – recebida de presente – com as cabeças de ambos tal como eram em 1952, ano em que formaram o casal conto de fadas de Helsinque.
Sobre suas visitas ao casal, Pirie lembra que os dois "brincavam entre si ruidosamente como crianças ou belos animais jovens em seus corpos perfeitos". Certa vez, de brincadeira, Emil empurrou Dana para dentro de um riacho. Por infelicidade, ela caiu sobre uma pedra e fraturou o calcanhar. Um dos divertimentos favoritos, e mais perigosos, da dupla era arremesar um dardo na direção do outro, sobre a cabeça, apanhá-lo no ar e devolvê-lo rapidamente.
Nas palavras de Pirie, os dois mantinham "o lar mais alegre e jovial" que ele conheceu.
RON CLARKE
Desde o momento em que o Fenômeno parou de competir, a casa dos Zátopek tornou-se um centro de romaria de corredores, famosos ou não, vindos de todos os cantos do mundo para conhecê-lo e ouvir os seus conselhos. Mesmo 40 anos depois de ter aposentado as sapatilhas, as visitas eram constantes e mantinham o velho campeão ocupado.
Adversários do passado, como Reiff, Pirie, Mimoun e Kuts eram amigos do peito e visitavam sempre que podiam. O casal retribuía a gentileza em suas viagens ao exterior. Com outros, como o triplista Adhemar Ferreira da Silva, manteve correspondência por toda a vida.
Pelo seu prestígio, era fácil para Zátopek convidar corredores famosos para competir na Tchecoslováquia. Um deles foi o multirecordista australiano Ron Clarke, o primeiro homem a quebrar a barreira dos 28 min nos 10.000 m e também célebre por seus treinos volumosos, apesar de trabalhar em tempo integral. Clarke idolatrava o tcheco voador e recebeu com grande honra o convite para correr em Praga, em 1966, no auge da sua carreira.
Na manhã de sua partida, Zátopek levou-o para uma corrida de 16 km no estádio. No livro Off the Record, de Brian Lenton, ele conta que o seu anfitrião desculpou-se algumas vezes por não estar em sua melhor forma aos 44 anos. "Mas foi um dos treinos mais duros da minha temporada europeia daquele ano", admitiu Clarke.
Depois, foram às compras, em Praga. Clarke queria levar alguns presentes. Não havia vaga para estacionar e, sem qualquer cerimônia, Zátopek parou na faixa vermelha. Quando saíram da loja, um policial escrevia a multa. Ao ver Emil, sorriu alegremente, rasgou-a e ainda pediu um autógrafo. Após uma manobra proibida de retorno, foram para outra loja, onde pararam novamente na faixa vermelha.
Imediatamente um policial começou a apitar e veio correndo. Ao reconhecer o dono do automóvel, ambos mantiveram uma animada conversa. Na volta, depois de uma hora, Zátopek não encontrou o seu carro. O policial o havia levado para uma área de estacionamento. Quando avistou a dupla, trouxe-o de volta, apertou a mão de Emil e foi-se embora. "Em toda a minha vida, nunca vi um ídolo igual", garantiu Clarke.
No aeroporto, o australiano recebeu uma pequena caixa de Zátopek, com a instrução de só abri-la no avião. Era a medalha de ouro dos 10.000 m de Helsinque, com a inscrição "To R. Clarke, a champion" (Para R. Clarke, um campeão). Apesar de ter batido até ali quinze dos 17 recordes mundiais da sua carreira, das duas milhas aos 20 km, o australiano nunca venceu uma prova nas Olimpíadas ou nos Jogos da Comunidade Britânica. Zátopek queria corrigir o que considerava uma injustiça. "Jamais outro homem me causou maior impressão. Dizer que ele foi uma figura única na história das corridas de fundo não é lhe fazer justiça. Mais apropriado, e verdadeiro, é dizer que ele é um ser humano único. Não há, nem nunca houve, um homem maior do que Zátopek", escreveu Clarke em seu livro The Lonely Breed.
EM DESGRAÇA
Em 1968, Zátopek tinha o posto de coronel do Exército quando as tropas do Pacto de Varsóvia invadiram a Tchecoslováquia, episódio conhecido como a Primavera de Praga. Numa manifestação na Praça Wenceslas, tomou o microfone e falou contra a presença de tanques soviéticos. Depois correu entre eles distribuindo panfletos anti-soviéticos.
Então um ativista político em favor da liberalização do país, preconizada pelo primeiro-ministro Alexander Dubcek, fez críticas abertas à União Soviética, que não dava a seus aliados “ar para respirar”. Ele era “comunista, sim, mas, acima de tudo, um tcheco”. Ousou mesmo dizer que a URSS deveria ser impedida de participar dos Jogos Olímpicos do México.
Ele e Dana, ao lado de intelectuais, artistas e líderes diversos, assinaram o Manifesto das 2.000 Palavras, em que o povo tcheco manifestava a sua determinação de romper o jugo soviético. "Só diplomatas e desportistas podiam viajar para o exterior. Então víamos os progressos da ciência e de outros setores. Ao voltarmos para casa, encontrávamos o país estagnado. Era uma luta por progresso e democracia", explicou Emil a Michael Sandrock, no livro Running With the Legends.
Como punição, em 1969, ele teve a sua patente de coronel cassada, foi expulso do Exército e do Partido Comunista, impedido de viajar ao exterior e de trabalhar em Praga. Tornou-se proibido falar o seu nome nos países da Cortina de Ferro. Zátopek só tinha licença para executar trabalhos manuais. A fim de sustentar-se e à esposa – não tinham filhos – precisou submeter-se a serviços de vigilância e faxina, inclusive de latrinas. O minguado salário só permitia-lhe ir em casa a cada duas semanas e obrigava o casal a manter a calefação da casa desligada no inverno, exceto no quarto.
Em 1970, enviaram-no para realizar pesquisas geológicas na Bohemia, onde ficou seis anos fazendo escavações em busca de água, urânio e outros minerais. Para o desapontamento de muitos, em julho de 1971, Emil fez uma declaração pública de arrependimento pelos seus atos. Acredita-se que tenha sofrido ameaças. Mesmo exilado nas minas, ele nunca deixou de falar abertamente contra o regime comunista.
“Um camarada tão famoso e acabou manejando uma pá. De que servem as medalhas olímpicas agora, se você não consegue nem carregar um saco de cimento?”, ironizavam os seus colegas mineiros. Longe de abalar-se, o grande campeão procurava o lado bom da situação. Aprofundou os seus conhecimentos de geologia e aproveitou para "ganhar músculos e melhorar a força estática".
Durante uma escavação de pesquisa, um tonel caiu sobre a sua perna esquerda, afetando a musculatura da coxa. Mais tarde, quebrou um braço em dois lugares. Sabia que nunca mais poderia correr como antes. Mas não se abalou. Disse à mulher: “Sabe, Dana, são os tempos difíceis que nos fazem fortes. Você pode comemorar as vitórias, mas só se aprende com as derrotas”.
Zátopek perdeu até a casa onde morava. Teve de passar uns tempos num trailer, antes de mudar-se para uma modesta casa no campo. Mas, quando sugeriam-lhe emigrar, ficava indignado: “Que ideia é essa, justo quando a nossa nação está de joelhos?”
Em 1976, foi reabilitado. O Ministério do Esporte, aproveitando o seu conhecimento de línguas estrangeiras, empregou-o como “espião esportivo”, incumbindo-o de traduzir publicações à procura de ensinamentos de técnicos estrangeiros. Ficou no Ministério até 1982, quando permitiram que se aposentasse.
Algum tempo depois foi chamado de volta para ajudar na preparação de filmes documentários sobre esportes.
SACOLA
O grande prestígio de Zátopek não deixou que o esquecessem. Desportistas do mundo inteiro escreviam-lhe, confortando-o, e a federação tcheca recebia dezenas de convites para que o casal comparecesse a eventos internacionais. E assim eles acabaram conseguindo permissão para viajar ao exterior – de início, um de cada vez. Jan Jirka era sempre o homem escalado para acompanhá-los e garantir que não pediriam asilo em outro país. "Nunca me preocupei com isto", recordou Jirka anos depois, "porque, apesar das dificuldades, Zátopek amava muito a Tchecoslováquia".
Em 1975, Zátopek recebeu da ONU o Prêmio Pierre de Coubertin, por promover a prática sadia do esporte. Mesmo assim, o casal continuava desprivilegiado pelo governo. Durante anos a Federação Internacional de Atletismo (IAAF) tentou homenageá-lo, mas a autorização para a viagem era sempre negada. Finalmente, no fim da década de 80, o presidente da IAAF, Primo Nebiolo, viajou a Praga para condecorá-lo.
Após a redemocratização do país, ocorrida em 1989, Zátopek, agora um amigo do presidente, foi reabilitado no ano seguinte através de um pedido público de desculpas feito pelo ministro da Defesa tcheco. Estava reconquistada a liberdade de viajar e falar livremente. Em 1998, o presidente tcheco Vaclav Havel condecorou-o com a medalha da Ordem do Leão Branco.
Com a queda da Cortina de Ferro, Zátopek passou a ser convidado de honra frequente de maratonas importantes, onde sempre era muito ovacionado e atendia incansavelmente inúmeros pedidos de autógrafos e fotografias. Também aceitou trabalhar para a Adidas como relações públicas. Um ano antes de morrer, gravou o último filme promocional para a empresa.
Certa vez, quando preparava-se para assistir a largada da Maratona de Nova Iorque, notou um corredor em apuros por não ter onde deixar a sua sacola. Desceu da tribuna de honra e ofereceu-se para ajudá-lo. Depois esperou pacientemente que o atleta cruzasse a chegada, bem atrás do campeão, para devolvê-la. Em conversa com o jornalista Joe Henderson, da revista Runner's World, comentou: "Não entendo porque sou tão reverenciado aqui".
ÍDOLO INESQUECÍVEL
Mesmo que o Fenômeno não entendesse toda aquela idolatria, ele adorava desfrutá-la. Ao redor do mundo, o seu nome foi dado a corridas, recebeu títulos diversos, homenagens variadas e as pessoas pareciam ungidas por uma graça especial ao falar com ele. Como em 1992, quando esteve na Califórnia, a convite da Universidade de Stanford para tentar um tratamento para o seu problema no nervo ciático, que o impedia totalmente até de trotar, resultado da ação de um vírus cinco anos antes. Zátopek foi apresentado à equipe de atletismo de Stanford. Ao saber que um corredor de 3.000 m com obstáculos teria uma prova dura nos próximos dias, dirigiu-lhe algumas palavras em particular. Foi o suficiente para o deslumbrado atleta baixar o seu melhor tempo em 21 s.
Possivelmente a pessoa mais popular do seu país, Zátopek era o ídolo das multidões na Tchecoslováquia. No exterior, era adulado por pessoas que nem sabiam de onde ele era, mas que já haviam ouvido falar o seu nome. Onde fosse, sempre gritavam o seu nome, pediam autógrafos e para posar em fotografias ao seu lado. Filip Kaspar lembra que, nos anos 70, quando fazia parte da seleção tcheca juvenil de caiaque, gostava de sair do centro de treinamento e ir ao bar frequentado por Emil, só para vê-lo e ouvi-lo. Invariavelmente, o herói das pistas estava cercado de gente. Falavam de vários assuntos, mas sempre alguém queria recordar alguma passagem especial de sua carreira. Graciosamente, Zátopek recontava as mesmas histórias, sempre com alegria juvenil.

Dana e Emil, em 1999
Três delas eram especialmente populares. Ele adorava relembrar o dia em que levou o seu cachorro para treinar com ele. Depois de acompanhá-lo em dezenas de voltas na pista, o animal estava tão cansado que não conseguia comer ou beber. As outras duas referiam-se a Dana. Emil costumava explicar que a sua vitória nos 5.000 m em Helsinque devia-se à ela. "Como as duas provas eram quase no mesmo horário, corri mais rápido com medo de ser atingido pelo dardo dela", dizia às gargalhadas.
A terceira era a anedota mais antiga sobre o casal. Na tarde em que ambos foram medalhados com ouro em Helsinque, ele disse a Dana, em frente à imprensa: "As minhas medalhas te entusiasmaram hoje a bater o recorde olímpico. Pensando nelas, arremessaste dois metros mais longe". Ao que ela respondeu: "Queres dizer que o entusiasmo é o fator mais importante no dardo? Pois experimenta entusiasmar outras mulheres e vê se elas batem o recorde olímpico também".
LEGENDA ESPORTIVA DO SÉCULO
Sempre foi assim, até a sua morte, em 21 de novembro de 2000. Em seu último ano de vida, Emil foi hospitalizado três vezes no Hospital Militar Central, em Praga. Primeiro, devido a uma fratura de fêmur. Depois, no dia 4 de setembro, uma infecção viral originou uma pneumonia, da qual ele recuperou-se, mas ficou enfraquecido. Finalmente, um derrame cerebral, sofrido no dia 30 de outubro, levou-o de volta ao hospital. A seriedade do derrame afetou o coração, os rins e os pulmões. Morreu de apoplexia cerebral, deixando viúva Dana Ingrova Zátopeková, a sua companheira ao longo de 52 anos.
A sua morte provocou manchetes e editoriais relembrando os seus feitos dentro e fora das pistas nos maiores jornais do mundo. Os seus 18 recordes mundiais e 51 recordes tchecos, a conquista da tríplice coroa, as quatro medalhas olímpicas de ouro e uma de prata, os três títulos de Desportista Mundial do Ano (1949, 1951 e 1952) – concedido por votação pelos cronistas esportivos de 38 jornais do mundo – a sua grandeza como ser humano e inovador do treinamento esportivo receberam menção nos mais diversos idiomas.

Jirka, Pedro (escondido na
bolsa), Zátopek e Miroslav
Jurek, em 1958
O corpo do tcheco voador foi velado durante vários dias no Teatro Nacional, em Praga. Segundo os jornais tchecos, cerca de um milhão de pessoas – quase um décimo da população do país – passou por lá para a derradeira despedida. Ao sair do teatro, rumo ao cemitério, o caixão coberto com a bandeira nacional recebeu o aplauso de milhares de pessoas e uma salva de tiros disparada em sua homenagem.
Alain Mimoun, com 80 anos, amigo querido e eterno adversário fez questão de estar presente. Lasse Arturi Viren, bicampeão olímpico (1972-1976) dos 5.000 m e 10.000 m e ex-recordista mundial em ambas as distâncias, representou a Finlândia.
Jirka também esteve lá e lembrou a última competição de Zátopek, em 1957. Depois de vencer a prova de cross-country em San Sebastian, na Espanha, o tcheco foi seguido nas ruas pela população. Parou curioso em frente a um restaurante basco com bandeiras da Tchecoslováquia. Ao entrar, notou, surpreso, fotos suas nas paredes e até antigos troféus, que ele costumava doar a admiradores e amigos. O dono idolatrava Emil. Tanto que ofertou-lhe até o próprio cachorro, chamado Pedro. Zátopek não aceitou, porque era ilegal levar animais de um país para o outro. Sem avisar, o dono do restaurante contrabandeou o cão para a França, onde fê-lo chegar a Emil, que escondeu-o numa bolsa para atravessar a fronteira tcheca. Ao ocultá-lo, Emil disse: "Pedro, fica em silêncio", em tcheco. Desde a primeira vez, o cão entendeu a mensagem. Ao entrar na bolsa, sabia o que fazer. Os dois viveram juntos dez anos e fizeram mais algumas viagens internacionais. Pedro sempre ia escondido na bolsa.
Após a sua morte, Zátopek foi eleito por unanimidade a Legenda Esportiva Tcheca do Século e recebeu a Ordem do Mérito da Federação Internacional de Atletismo. 
Em sua última entrevista, concedida à revista econômica inglesa Quicksilver, declarou: "Sei que fui bom no que fiz, mas, melhor ainda, é saber que não esqueceram de mim".
O TCHECO IMORTAL
Quando decidiu escrever o livro Running With the Legends, onde retrata a vida de 21 corredores famosos da segunda metade do século 20, Michael Sandrock foi a Praga, em 1995, visitar Emil e Dana. Encontrou-os vivendo numa casa modesta de três andares, cercada por um jardim florido mantido por Dana, árvores frutíferas e o cachorro Kubo, com quem o Fenômeno dava duas ou três caminhadas diárias. Foi recebido no portão de ferro com o mesmo sorriso entusiasmado e a saudação simples ouvida através do mundo por várias décadas: "Olá, sou Zátopek". Como se àquela altura da vida ele ainda necessitasse apresentações.
Um aperto de mão firme e já eram velhos amigos. Nas paredes da casa confortável, muito limpa, bem iluminada, antigas fotos emolduradas dos dois grandes atletas davam o seu testemunho de batalhas épicas, recordes, amizades e momentos de glória do passado. Uns poucos troféus ajudavam na decoração, completada por pinturas, livros e uma estátua de Santa Bárbara, a padroeira dos mineiros. Emil falou com entusiasmo, entrecortado por algumas observações de Dana. Sandrock lembrou em silêncio as palavras de Gordon Pirie e concordou: aquele ainda era um lar alegre e jovial.
Ao tentar confirmar diretamente do seu protagonista as muitas histórias que corriam a seu respeito, viu Emil de volta às pistas, às florestas. O velho campeão, com uma energia incomum para um homem de 73 anos, levantava-se repetidamente da cadeira. Ria, revivia as suas passadas, repetia gestos do passado, fazia caretas, lembrava, vibrava e sofria com os detalhes. Por vezes, a voz sumia, o olhar ficava perdido no horizonte, as lágrimas brotavam.
História, política, sociologia e citações de Platão enriqueciam a conversa. O entusiasmo, a camaradagem e o amor de Emil pela vida enchiam o ar.
Ao narrar as brutais cargas de treinamento que se auto-impunha, o Fenômeno admitiu que não as recomendaria aos atletas de hoje. Agora preferia qualidade à quantidade. “Correr 40 a 50 quilômetros por dia é desnecessário e desgastante”, concluiu o tcheco voador. Mas nem só de repetições vivia Emil. Havia dias em que ele treinava "leve": duas horas trotando. Mas lembrou que sempre valorizou o descanso, o treino reduzido antes de competições e a boa alimentação, especialmente as frutas e as verduras, que consumiu com gosto até a velhice.
No seu entender, as formas tradicionais de treinamento eram monótonas. O trabalho intervalado proporcionava-lhe a oportunidade da variedade e da experimentação. Centenas de combinações de distâncias, velocidades, repetições e intervalos foram testadas até ele optar por aquela que considerasse melhor. Correr na neve, com botas, mochila, máscara contra gases, segurando a respiração ou carregando Dana nas costas foram alguns dos seus experimentos. Emil divertia-se com eles, mantendo a mente sempre tão ativa como o corpo, nunca permitindo que uma sessão de treinamentos fosse aborrecida.
Os seus melhores tempos em séries de 400 m? Zátopek nunca soube. Ele treinava intuitivamente, sem cronômetro. O importante era a intensidade que o corpo sentia. Nas palavras do campeão, tratava-se de "um treinamento muito simples e primitivo".
Sempre modesto, Zátopek não fazia segredo dos seus métodos de treinamento porque nada via de especial neles ou em si próprio. Atribuía tudo à sua força de vontade. Como o mundo descobriu depois, não eram os detalhes do seu treinamento que contavam, mas a total ausência de limites auto-impostos e a entrega absoluta na busca dos seus objetivos.
LIBERDADE
Devido as regras da época, a Locomotiva Humana ganhou pouco dinheiro com as suas vitórias e recordes e vivia na velhice com uma modesta pensão do governo. Ao vencer uma corrida na França, em 1947, o prêmio era oito vezes maior do que os US$ 250 permitidos pelos critérios amadores do Comitê Olímpico Internacional. Pegou o suficiente para comprar um presente à namorada e pediu ao diretor da prova que desse o resto ao seu amigo, o corredor belga Chapel, que havia chegado em nono lugar.
Na saída, ao acompanhar Sandrock ao portão, Zátopek viu um robusto pedaço de madeira caído no jardim. Mancando um pouco com a perna lesionada nas minas, e atacada em 1987 por um vírus que afetou o nervo ciático, o tcheco voador ergueu-o e jogou-o na pilha de lenha, do outro lado do gramado. Com o mesmo rosto em agonia, a mesma respiração ofegante e a expressão de quem havia sido recém esfaqueado no coração.
Antes de partir, Sandrock conheceu as florestas que Emil tanto amou e nelas treinou. Encontrou vários corredores por lá. A um deles mostrou uma foto da Locomotiva Humana com o rosto desfigurado pelo esforço. Numa época em que a República Tcheca e a Eslovênia, unidas em 1920 e separadas em 1993, cicatrizavam as feridas provocadas pela política separatista, Sandrock ouviu como resposta: "Não se deixe enganar pela foto. Zátopek é o único homem feliz neste país".
Sandrock começou a perguntar-se o que seria a liberdade. Treinar incessantemente durante anos, enfrentar o frio e a neve, correr milhares de quilômetros, repetir 400 m centenas de vezes numa semana para estar na melhor forma física do mundo, dedicar a vida e o corpo à conquista de uma medalha de ouro e, depois de conquistá-la, dá-la a alguém... Isto é a liberdade!
FRASES DE EMIL ZÁTOPEK
●   "Eu não tinha velocidade. Devo tudo à minha força de vontade."
●  “Você nunca verá cervos, coelhos e cachorros preocupados com seus menus e mesmo assim eles correm mais rápido do que os humanos.”
●   "Quando alguém treina uma vez, nada acontece. Quando a pessoa força-se a fazer algo cem, mil vezes, ela certamente desenvolve-se além do físico. Está chovendo? Não importa. Estou cansado? Também não importa. A partir dali, a força de vontade já não é mais um problema."
●   “Um corredor deve correr com sonhos no coração, não com dinheiro nos bolsos.”
●   "Estive em muitas Olimpíadas, como atleta e como espectador. Para mim, de todas, a mais bela foi a de Helsinque. Não pelas nossas vitórias, mas pelo calor do povo finlandês, tão voltado para a natureza, pela beleza do país, a fraternidade entre os atletas e a organização perfeita. Aqueles Jogos não foram manchados pela política, boicotes, interesses comerciais ou pelas drogas." 
●   "Os atletas que enriquecem deveriam dar algum retorno à sociedade. Talvez pedir aos seus patrocinadores que construam uma piscina numa vila pobre."
●   “Você não sobe ao segundo andar sem uma escada. Quando fixa objetivos muito altos e não os atinge, o seu entusiasmo se torna amargura. Fixe objetivos razoáveis e, então, gradualmente, eleve-os.”
●   "Muitos copiaram os meus métodos e falharam. Então eu dizia a eles: 'Este é o meu método. Funciona para mim. Descubram um que funcione para vocês.'"
●   "É na solidão dos longos treinamentos que se forja o coração do atleta."
● "Na vida, as maiores lutas do homem são travadas na solidão. Assim também é nas corridas longas. E nestas, como na vida, o ato de participar é mais importante do que vencer, ainda que seja a ilusão da vitória que nos dê forças para continuar lutando."
●   “Se você quiser vencer algo, corra 100 metros. Se quiser experimentar uma nova vida, corra a maratona.”
●   "Existe uma conexão especial que se forma entre grandes rivais. Algo que é forjado através de incontáveis horas de treinamentos e que só eles podem compreender. Algo mais importante do que recordes e medalhas, uma energia que leva a todos a tentar o melhor de si. Este esforço cala fundo na mente e produz grande respeito entre adversários. Eu prezo esta qualidade também na derrota, porque ela nos dá a chance de perguntarmo-nos: Por que não fui bom o suficiente? O que fazer para elevar o meu padrão de treinamento e de vida?"
●   “Todas as vezes que estive na pista, eu quis vencer.”
** OS RECORDES MUNDIAIS DE EMIL ZÁTOPEK **
1949
11.06 – 10.000m – 29min28,2s
22.10 – 10.000m – 29min21,2s
1950
04.08 – 10.000m – 29min02,6s
1951
15.09 – Hora – 19,558 km
           20 km – 1h01min16s, estabelecido na sequência do recorde da hora.
29.09 – 10 milhas – 48min12s
            20 km – 59min51,8s
            Hora – 20,052 km. Primeiro homem a quebrar a barreira dos 20 km na hora. Os recordes das 10 milhas e dos 20 km foram obtidos na passagem em busca do novo recorde da hora.
1952
26.10 – 15 milhas – 1h16min26,4s
            25 km – 1h19min11,8s
            30 km – 1h35min23,8s. Os recordes das 15 milhas e dos 25 km foram obtidos na passagem em busca do recorde dos 30 km.
1953
01.11 – 6 milhas – 28min08,4s
           10.000m – 29min01,6s. O recorde das 6 milhas foi obtido na passagem em busca do novo recorde dos 10.000m.
1954
30.05 – 5.000m – 13min57,2s
01.06 – 6 milhas – 27min59.2s. Primeiro homem a baixar de 28 min nesta distância.
           10.000m – 28min54.2s. Primeiro atleta a quebrar a barreira dos 29 min. O recorde das 6 milhas foi obtido na passagem em busca do novo recorde dos 10.000m.
1955
29.10 – 15 milhas – 1h14min01s
            25 km – 1h16min36,4s. O recorde das 15 milhas foi obtido na passagem em busca do recorde dos 25 km.
NOTAS
  1. Em 1920, Paavo Nurmi venceu os 10.000 m e o cross-country, disputado em 12 km, e foi segundo nos 5.000 m. Em 1924, venceu os 1.500 m, os 3.000 m por equipe, os 5.000 m e o cross-country. Em 1928, venceu os 10.000 m e foi segundo nos 5.000 m e nos 3.000 m com obstáculos.
Obs: O cross-country foi substituído pelos 3.000 m com obstáculos e o 3.000 m por equipe retirado do programa olímpico.
Johan “Hannes” Kolehmainen venceu os 5.000 m, os 10.000 m e o cross-country, em 1912. E a maratona em 1920.
 Endereço dos autores:
 José Luiz Emerim: opefa_remo@yahoo.com
Wilson Reeberg: wilsonreeberg@uol.com.br