A oração do Pai-Nosso: tão calma e tão incendiária
Respeito todo e qualquer tipo de crença e religião, mas, como disse, não discorrerei sobre religião. A única defesa que farei é de uma mente livre para debater as idéias. Quando a fé inicia, a ciência se cala. A fé transcende a lógica, é uma convicção em que a dúvida está ausente.
Por sua vez, a ciência emerge da dúvida. Quanto maior for a capacidade de duvidar e de questionar um fenômeno, maior será o processo de observação e investigação. Maior a arquitetura da resposta.
Se por um lado Jesus discorria sobre a fé, por outro nos deixava boquiabertos com sua capacidade de polir a arte de pensar. Suas parábolas inauguraram novas possibilidades para o mundo das idéias.
Lapidava o intelecto dos seus ouvintes como um escultor que fere o mármore em busca da sua obra-prima.
Jesus era muito mais do que um propagador da fé. Era um incendiário da inteligência. Qualquer ateu que o investigar sem preconceito, ainda que não se torne religioso, terá de curvar-se diante da sua sabedoria.
Analisarei a oração do Pai-Nosso sob os mesmos ângulos usados na coleção Análise da Inteligência de Cristo. Essa oração é uma caixa de enigmas. Revela, inclusive, princípios para estabelecer a viabilidade da espécie humana dilacerada pela intolerância religiosa, pelas discriminações, pela competição predatória, pelos transtornos psíquicos e sociais.
O ambiente era épico. Ali Jesus proferiu talvez seu mais notável discurso, o Sermão da Montanha. O ambiente era propício para que as palavras ganhassem sonoridade. As rajadas de vento revolviam os cabelos dos ouvintes e libertavam o imaginário. O silêncio era uma sinfonia.
Antes e durante a proclamação do seu brilhante discurso, o Mestre dos Mestres talvez tenha contemplado Jerusalém, a mais célebre das cidades, que se encontrava a algumas centenas de metros à sua frente. Jerusalém, palco de eternas disputas, teatro de alegria e dor, se tornaria capital das três grandes religiões monoteístas: o judaísmo, o islamismo e o cristianismo.
Se essas religiões vivessem minimamente o conteúdo da oração do Pai-Nosso, haveria júbilo, e não choro, paz, e não guerras, requinte de lucidez, e não loucuras. Como o mais pujante dos oradores, o homem Jesus elevou sua voz.
Suas palavras penetraram no mais íntimo dos que o ouviam como a lâmina de um cirurgião que disseca os tecidos secretos. No meio do seu discurso, respirou profundamente, fez uma pausa serena e ensinou sua magna oração, criando uma plataforma para que a humanidade tivesse um diálogo íntimo, translúcido e aberto com o misterioso Autor da existência. Ele bradou em voz bem alta:
Pai-Nosso
Que estás nos céus,
Santificado seja o Teu nome,
Venha a nós o Teu reino,
Seja feita a Tua vontade,
Assim na terra como no céu,
O pão nosso de cada dia nos dá hoje,
Perdoa as nossas ofensas,
Assim como temos perdoado a quem nos tem ofendido,
E não nos deixes cair em tentação,
Mas livra-nos do mal. {Mateus 6:9)
O Pai-Nosso é uma caixa de segredos. É preciso abri-la. Com as palavras dessa oração Jesus procurava emancipar as mentes, libertar a emoção. Nela, nenhum miserável foi excluído, nenhum errante foi rechaçado, nenhum sacrifício foi pedido, nenhum dogma proclamado, nenhuma lei estabelecida.
Seus enigmas fascinantes são capazes de expandir o potencial humano não apenas no campo da espiritualidade, mas também no terreno da saúde psíquica, das relações sociais, da superação de conflitos, da educação, do desenvolvimento da inteligência e do resgate da liderança do eu. São implicações surpreendentes.
A oração do Pai-Nosso rima nos extremos: é singela e complexa, calma e incendiária, inofensiva e desafiadora.
Jamais palavras simples tiveram tanta profundidade.
Jamais um texto tão pequeno foi tão revolucionário.
Augusto Cury
Augusto Cury