segunda-feira, 1 de abril de 2013

A RESSURREIÇÃO NA VISÃO ESPIRITA



“E ele [Jesus] disse: Ide à cidade, a um certo homem, e dizei-lhe: O Mestre diz: O meu tempo está próximo; 

em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos.” (Mateus, 26:18) 

Muitas pessoas acreditam que a Páscoa é uma festa cristã em que se comemora a ressurreição de Jesus. Entretanto, a origem desta festividade é bem diferente, pois as anotações dos evangelistas nos informam que o próprio Jesus celebrou a Páscoa com seus discípulos. 

Sabe-se que alguns costumes ligados ao período pascal originam-se dos festivais pagãos da primavera, enquanto que outros vêm da celebração da “Pessach” ou “Passover”, a chamada Páscoa judaica e que significa “passagem”. 

Trata-se de uma das mais importantes festas do calendário judaico, sendo conhecida também por “Festa dos Pães Asmos”. É celebrada por 8 dias em comemoração à libertação dos israelitas do cativeiro no Egito, durante o reinado do faraó Ramsés II. 

Naquela época acreditava-se que Deus havia ferido de morte todos os primogênitos egípcios, mas que havia poupado os israelitas porque as portas de suas casas estavam marcadas com o sangue de um cordeiro especialmente sacrificado para isso. 

Por tal motivo, dentre as festividades da Páscoa, no dia 14 de Nisan (nosso mês de Abril) servia-se uma ceia especial, cujo prato principal era um cordeiro, sacrificado em homenagem à fuga do Egito. Séculos mais tarde, Jesus foi situado como o “Cordeiro de Deus” sacrificado para salvação dos homens, pensamento este que não encontra embasamento doutrinário nos postulados espíritas. 

O Mestre ministrou seus derradeiros ensinamentos naquela noite de quinta-feira em que celebrava a Páscoa com seus apóstolos, pois já se aproximava o término de sua missão, enquanto encarnado, junto à humanidade. 

Jesus, primeiramente, repartiu o pão e o vinho, simbolizando o conhecimento da Verdade e o trabalho em benefício do nosso próximo, tão bem ensinados e exemplificados por ele. Logo em seguida surgiu uma discussão entre os apóstolos para saber qual deles era o maior. Aproveitando a oportunidade, o Mestre lavou os pés de cada um deles, demonstrando, com este gesto de extrema humildade, que “quem quiser ser o maior, que seja o servidor de todos.” 

Ainda naquela noite indelével, o próprio Jesus indicou aquele que o trairia e preveniu Pedro a respeito da negação. Não obstante, deixou-nos o inolvidável “que vos ameis uns aos outros, assim como eu vos amei e nisto todos conhecerão que sois meus discípulos.” Confortou os apóstolos prometendo o envio de outro Consolador e deixando a sua paz. Afirmou que ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida”, é a videira verdadeira. O Mestre havia vencido o mundo e encerrou a palestra com uma oração intercessória por si mesmo e pelos discípulos, os daquela época e os futuros. 


Após sua prisão, julgamento e execução no episódio conhecido como “Drama do Calvário”, eis que no domingo seguinte Jesus ressuscita e reaparece, primeiramente às mulheres que se encaminhavam ao seu túmulo e, em seguida, aos demais apóstolos que ainda se encontravam incrédulos com as promessas feitas por ele e receosos das perseguições que poderiam sofrer por parte do Sumo Sacerdote Caifás, bem como pelos membros do Sinédrio. 

A ressurreição de Jesus no domingo de Páscoa passou a ser comemorada por toda a cristandade. Entretanto, o sentido que lhe foi atribuído não corresponde à realidade dos fatos. 

A ciência nos prova que a ressurreição, conforme ensinada pela Igreja, é impossível de ocorrer, pois após a morte do corpo físico as moléculas que o formavam se desagregam. Isto é fato atestado pela ciência e ratificado pelos Espíritos superiores responsáveis pela codificação do Espiritismo.  

Mas, e a ressurreição de Jesus? Ela não ocorreu? Sim, porém precisamos entender o significado real de tal palavra. Segundo o Novo Dicionário Aurélio, ressurreição significa o ato ou efeito de ressurgir ou reaparecer. 

Vejam como as coisas começam a clarear: após a morte no Calvário, Jesus ressurgiu ou reapareceu em espírito, não em carne. Este, inclusive, era o pensamento do apóstolo Paulo que, em sua primeira epístola aos coríntios, escreveu: “Temos dois corpos, um natural e outro espiritual, e ressuscita corpo espiritual” (15:44) e ainda “... a carne e o sangue não poderão herdar o reino de Deus” (15:50). Além disso, o próprIo Mestre já havia ensinado o mesmo conceito em João 6:63: “O espírito é que vivifica, a carne para nada aproveita.” 

Portanto, em perfeita sintonia com o pensamento crístico e evangélico, podemos afirmar que a ressurreição de Jesus nada apresenta de sobrenatural, pois se assenta sobre as bases da Lei Natural ou Divina, e o mesmo acontece com todas as pessoas ao desencarnarem, ou seja, desaparece o corpo físico e o espírito reaparece revestido pelo seu corpo espiritual (também chamado de Perispírito, Psicossoma ou Corpo Astral). 

É importante salientarmos que esta ressurreição acontece na dimensão espiritual, sendo possível que o espírito desencarnado se apresente a um médium vidente ou se materialize, desde que sejam observadas certas circunstâncias, tais como: presença de um ou mais médiuns de efeitos físicos, objetivos da manifestação, permissão da Espiritualidade Superior, etc.  

Destaque-se que há alguns anos chegou às livrarias uma obra chamada Repensar a Ressurreição, cujo autor é o maior teólogo católico da atualidade, o espanhol André Torres Queiruga.  Em seu livro, Queiruga chama atenção para o fato de que, há mais de dois mil anos, teólogos do mundo inteiro têm interpretado incorretamente a questão da ressurreição de Jesus, pois segundo o próprio autor, a ressurreição ensinada por Jesus e por Paulo é o ressurgimento ou o reaparecimento do espírito e não da carne.  

Diante desta nova visão, uma pergunta fica no ar: o que teria acontecido ao corpo físico do Mestre? Existe uma infinidade de variáveis: posteriormente poderia ter sido colocado em outra sepultura, pois ele estava temporariamente em um túmulo cedido por José de Arimatéia; o corpo poderia ter sido transmutado ou desintegrado pelo próprio Jesus ou por algum dos Espíritos que o assessoravam em sua missão crística. 

São numerosas as hipóteses..E qual seria o significado da Páscoa para os Espíritas? Vamos pensar em dois caminhos, de acordo com o significado judaico e o cristão.  Para os judeus, a Páscoa simboliza a passagem da escravidão no Egito para a liberdade. 

Atualmente, todos nós, espíritos ainda imperfeitos e falíveis, trilhamos os caminhos evolutivos buscando fazer a passagem de nosso homem velho, cheio de vícios e mazelas, para o homem novo, renovado pelos ensinamentos do Cristo. Estamos travando o bom combate conosco mesmos para que possamos sair da escravidão da ignorância espiritual para a libertação que só o conhecimento da Verdade proporciona. 

Para os cristãos, e de acordo com o dicionário, Páscoa é renascer, é ressurgir. Assim, podemos entender que a Páscoa simboliza o renascimento moral e espiritual do homem para Deus. 

Não precisamos então devemos ficar esperando uma próxima reencarnação para nos renovarmos. A renovação pode e deve se iniciar hoje, pois todo dia é dia de nos renovarmos em Cristo Jesus.  Entretanto, este renascimento de nós mesmos não ocorre de forma imediata. 

Trata-se de um processo que nos requer muito esforço, perseverança e vigilância, sendo que para isso torna-se fundamental vivenciarmos as lições da Boa Nova em nosso dia-a-dia, nos aprofundarmos nos estudos evangélico doutrinários para adquirirmos o conhecimento que liberta, fazer o bem a todas as pessoas, extirpar de nosso íntimo o egoísmo e o orgulho, além de cultivarmos a humildade, a simplicidade, a paciência, o espírito de serviço e, sobretudo, o amor.  

As palavras do Mestre são para todos nós, em qualquer tempo, local e circunstância. No versículo que escolhemos para servir de base às nossas reflexões, Jesus encaminha a sua mensagem a um certo homem que, na verdade, simboliza cada um de nós. 

E a sua fala é cristalina: “... em tua casa celebrarei a Páscoa com os meus discípulos”.  Há muitas reencarnações estamos apenas ouvindo ou distorcendo o sentido das palavras do Cristo. No entanto, é chegado o momento de fazermos com que estas sementes divinas se transformem em frutos. 

É preciso abrirmos a nossa casa mental e o nosso coração para a passagem de Jesus e a renovação espiritual que ele nos propõe. Seus discípulos, representados por todos os bons espíritos que trabalham em seu nome, estão sempre prontos a nos auxiliar, mas para isso precisamos fazer a nossa parte: abrir o nosso espírito para o Cristo. 

Por Valdir Pedrosa – Janeiro/2008