segunda-feira, 3 de junho de 2013

A Síndrome da chinelização


A chinelização é uma síndrome (conjunto de sinais e sintomas) que vem afetando a população brasileira há décadas, mas que se agravou a partir de 2003, e hoje aflige todo o território nacional. Os primeiros casos em Porto Alegre ocorreram em 1988. O paciente “chinelizado” não tem sexo nem idade específicos. Também já foi estabelecido que a doença afeta todas as classes sociais. Por algum tipo de lesão neurológica ainda desconhecida, a pessoa afirma que Ivete Sangalo tem o mesmo valor que Mozart, declara sem constrangimento que Paulo Coelho é tão bom quanto Machado de Assis, pensa que o jazz é “uma música” inventada para as comédias do Woody Allen, e não vê a diferença entre um filme de Glauber Rocha e um capítulo de “Avenida Brasil”.

Os chinelizados podem ser vistos com frequência no verão vagando pelas praias do Leblon, do Guarujá, ou aqui em Atlântida no Rio Grande do Sul. Eles são capazes de comprar uma Mercedes 380, ou um BMW, e mandar rebaixar o carro no qual instalam sempre luz neon e rodas tala larga. A próxima etapa é colocar um CD do Michel Teló ou da Valesca Popozuda tocando num volume tão alto que, quando o carro está em Torres (RS), pode-se escutar o som em Florianópolis (SC).

Muitas vezes o paciente chinelizado não é uma má pessoa e se define como alguém preocupado com aquecimento global, com as focas do Alaska e os ciclistas, além de fazer uma defesa radical do aborto e do casamento gay. Em outros momentos ele apresenta opiniões altamente elaboradas que costuma proferir depois de almoçar e sempre com um palito no canto da boca. As afirmações mais complexas são: “brigar por causa de mulher é besteira”, “religião cada um tem a sua”, e “política não se discute”. Na frente de um aparelho de televisão, o doente consegue passar horas assistindo a um treino de fórmula 1 ou à transmissão de um baile de carnaval de salão, após comer quatro pratos de estrogonofe de galinha com batata palha e tomar meio garrafão de vinho tinto suave fabricado no Brasil. 

Quando junta algum dinheiro, o chinelizado viaja invariavelmente para Miami ou Nova York (coisa que eu também gostaria de fazer... rss... rss), mas se enfurece ao extremo quando lhe perguntam por que não visitou Londres, Roma ou Paris. Nos casos em que a pessoa é na verdade mau caráter, o diagnóstico fica mais complexo porque neste estágio ela elabora doutrinas próprias sobre as grandes questões brasileiras. Em relação à saúde, por exemplo, ela sustenta que o SUS é um grande avanço, já que “qualquer tipo de atendimento é melhor que nenhum” (mas finge esquecer que para si mesma ela não quer qualquer atendimento, e sim o melhor de todos).

A etapa mais grave da doença começa quando o chinelizado decide falar sobre Filosofia e História. Aí é que o quadro piora, porque afirma que Foucault e Derrida têm o mesmo valor que Sócrates e Platão, ou que a Escola de Frankfurt é tão importante quanto a de Atenas. Questionado sobre a existência ou não de Deus, a pessoa afetada (com vergonha de ser considerada uma fanática) adora dizer que acredita em “alguma coisa superior” ou em certo tipo de “energia além da vida”.

Muitas vezes os chinelizados se reúnem em grupos e fazem questão de se apresentar como “minorias”. De uma maneira geral acreditam que “todo Estado brasileiro bem como a sociedade” têm uma “dívida histórica” com eles. No período de carnaval, os pacientes portadores da doença afirmam que o carnaval “é uma festa que faz parte da riqueza cultural do Brasil” e que é uma “oportunidade para as pessoas assumirem a sua sexualidade sem medo de SER (o erro de concordância é deles; não meu) FELIZ”.

Até hoje não se descobriu nenhum tratamento para a doença. Recomenda-se, de forma preventiva, procurar um bom fonoaudiólogo para não falar com a língua presa, evitar beber coca cola com cachaça, e frequentar churrascarias com espeto corrido a 25 reais. Fazer assinatura de qualquer empresa de TV a cabo também pode ajudar, e aconselha-se assistir a documentários até mesmo sobre monstros, com o objetivo de evitar contato com a Rede Globo aos domingos.

De uma maneira geral, a Síndrome da Chinelização tem um prognóstico muito ruim e nos casos mais graves os pacientes terminam entrando para a política ou tornando-se professores da Universidade Pública Brasileira.

O único caso do qual tenho notícia de cura parcial foi o meu. Consegui melhorar um pouco através do recolhimento, da oração, do estudo constante, e da lembrança deixada por um certo cidadão que morreu cerca de 2.000 anos atrás, o qual dizia para “não fazer para o outro aquilo que não quero para mim mesmo” – advertência severa para todo aquele que esquece que fora da caridade não há salvação. 


O autor é médico em Porto Alegre, RS.


              Milton Simon Pires