terça-feira, 28 de outubro de 2014

ALGO MUITO GRAVE VAI ACONTECER NESTA ALDEIA.

Algo muito grave está acontecendo.

Você é uma “velha”?!!

Descubra no texto de Gabriel Garcia Marques.

Conto de Gabriel Garcia Marques (Prêmio Nobel da literatura latino-americana)
Tradução de Zelmo Denari.
Publicado em: PIO-PARDO, edição de julho de 2014, página 7.

           ALGO MUITO GRAVE VAI ACONTECER NESTA ALDEIA.

Imagine você uma aldeia muito pequena, onde vive uma senhora velha que tem dois filhos, um de 17 e outro de 14. A velha serve o café da manhã e expressa no rosto uma preocupação. Os filhos perguntam o que sucede e ela responde:
- Não sei, mas amanheci com o pressentimento de que alguma coisa muito grave vai acontecer nesta aldeia.
Os filhos riem da mãe. Dizem que eram pressentimentos de velha, coisas que passam. O filho sai para jogar bilhar e no momento em que vai fazer uma carambola(*) facílima, o outro jogador diz:

- Aposto dez Reais que não consegue...

Todos riem, inclusive o filho, que executa a jogada e erra a caçapa. Paga sua aposta e todos perguntam como conseguiu errar uma bola tão fácil. Responde:
-É verdade, mas é que estou preocupado com o que disse minha mãe nesta manhã: algo muito grave deve acontecer nesta aldeia.

Todos riem dele e o vencedor da partida regressa à sua casa, onde encontra sua mãe, uma neta e uma parente. Feliz com os dez Reais ganhos diz:
- Ganhei estes trocados do Damaso de um jeito muito fácil, porque ele é um tonto...
-Por que, um tonto?
- O homem não conseguiu fazer uma carambola facílima, perturbado com a idéia de que – segundo a mãe dele – algo de muito grave deve acontecer nesta aldeia...

Replica sua mãe:

- Não brinque com pressentimentos de velhos, porque às vezes acontecem...

            Uma parente ouve as palavras do rapaz e si para comprar carne no açougue. Diz ao açougueiro:

            - Quero um quilo de carne...

            No momento em que o açougueiro está cortando a carne, agrega:

            - Melhor, venda-me dois quilos, porque andam dizendo que algo grave está para acontecer nesta aldeia. É melhor estar preparada.

            O açougueiro despacha a freguesa e quando chega outra para comprar um quilo de carne, diz:

            - Leve dois, porque tem gente dizendo que algo muito grave vai acontecer nesta aldeia. Já estão se preparando, comprando coisas.

            Então a freguesa responde:


            - Tenho vários filhos, melhor dar-me quatro quilos...

            A mulher leva os quatro quilos e, para não prolongar esta estória, direi que o açougueiro esgota em meia hora a carne, mata outra vaca, vende-a toda, enquanto se espalha o rumor. Chega um momento em que todo mundo da aldeia está esperando que alguma coisa suceda. O comércio fecha suas portas e, às duas da tarde, faz o calor habitual.

            Alguém diz:

            - Vocês percebem como está fazendo calor?

            - Sim, mas esta aldeia sempre sofreu muito calor!

            De fato, dizia-se que o calor era tanto que os músicos, cujos instrumentos eram emendados com breu, tocavam sempre à sombra para que não caíssem em pedaços..

            - Porém – disse alguém – nunca fez tanto calor nesta hora...
            - De fato, mas às duas da tarde é sempre quente...
            - Não como agora.

            No povoado deserto, praça deserta, desce um passarinho e comentam:
            - Há um passarinho na praça.

            Todos acodem, para ver o passarinho.

            - Minhas gentes sempre tiveram passarinhos pousando por aqui!  - diz alguém.
            - Mas nunca a esta hora...

            Chega, então, o momento em que todos ficam em estado de tensão e, desesperados, querem sair da aldeia, mesmo sem dinheiro.

            - Eu sou muito macho – grita um. Vou bater em retirada!

            Agarra seus móveis, seus filhos, seus animais. Coloca-os numa carreta e atravessa a rua central, onde é visto por todos os aldeões. De repente, um deles se levanta e diz:

            - Se ele se atreve, nós também vamos!

            Começam a desmanchar literalmente todo o povoado. Levam as coisas e os animais.

            Um dos últimos a abandonar o povoado diz:

            - Que não venha esta desgraça recair sobre o que resta de minha casa – em seguida, incendeia a casa e os outros fazem a mesma coisa.

            Em meio ao pânico, como num êxodo de guerra, ouvem a velha que teve o pressentimento clamar:

            - Não disse que algo de muito grave iria acontecer! E disseram-me que estava louca.