quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

O bico nosso de cada dia – Entrevista Diretor Zibetti – ASSTBM Passo Fundo

O baixo salário recebido pelos policiais militares é o fator gerador de uma situação inusitada a ser enfrentada por esses profissionais: a necessidade de conciliar o trabalho de PM com outra profissão, ou seja, o chamado bico. José Luiz Zibetti, diretor presidente da Associação dos Sargentos, Subtenentes e Tenentes da Brigada Militar (ASSTBM), não questiona a atitude dos PMs que fazem bico, pois, segundo ele, ganhando R$ 1,2 mil – já computadas as diárias e horas extras – eles não tem como pagar um aluguel e sobreviver. “Temos gente que faz bico em farmácia, que faz bico em boates, que faz bico em postos de gasolina. Tem gente que faz até segurança pessoal. Quem contrata prefere sempre o pessoal da ativa, pois se ele precisar vai ligar para a Brigada Militar ir lá dar o apoio”, explica.

E complementa: “Dou um abraço no colega que faz bico, pois esse não vai roubar, não vai assaltar, não vai se vender para o tráfico e não vai participar daquelas da casas de jogos. Ele vai trabalhar dignamente. Vai ser um cidadão”, defende Zibetti. Ele dá o próprio exemplo, pois foi por muitos anos motorista de táxi quando era soldado. “Na época nosso salário já era ruim. Isso não é de hoje. Já é histórico que a BM paga mal. Então, eu saída da Brigada e ia trabalhar como taxista. Também trabalhei em padaria e em portaria de hotel. Fiz três bicos sendo soldado da BM, por necessidade. Tinha dois filhos e com o baixo salário, ficava feliz quando conseguia um trabalho. Eu criei os filhos através do bico também.”

Indignado com a situação salarial do policial de nível médio, ele cita o exemplo de outros profissionais para defender o bico. “Você já viu um policial federal fazer bico? Não faz bico! Já viu um juiz ou um promotor fazer bico? Não, pois eles têm um salário digno do que merecem. Só quem não tem o salário merecido é quem mete o peito para tomar um tiro na rua”, lamenta.

70% fazem bico

“Bico na Brigada Militar é uma coisa que temos que pensar e deixar fazer mesmo. Se não tem salário, que façam bico mesmo, pois é melhor do que deixar a mulher e os filhos em casa com fome. Creio que mais de 70 % dos policiais militares, nas grandes cidades, fazem bico”, enfatiza Zibetti.

Ele complementa: “Temos colegas que são pedreiros, outros trabalham com informática. Isso depende de cada um. Se não tenho nenhuma especialização fora da área da segurança, vai entrar no mercado da segurança privada. É melhor eles (os comerciantes) terem um policial do que outra pessoa que não conhecem, pois sabem que ele tem uma carteira de policial respaldada no poder de polícia”, complementa Zibetti.

Policial sempre

“Tu é polícia sempre. Tu ta em casa, ta no ônibus, ta no mercado, vê um assalto e não vai fazer nada? Se tu está civil e não faz nada, opa, se omitiu! Podem te punir por omissão. Claro que tu vai pesar os prós e os contras, pois não vai entrar em um assalto com cinco bandidos sozinho, mas pelo menos deve chamar o reforço. Tu é policial nas 24 horas do dia. Fardado ou civil, tu não deixa de ser polícia”, explica Zibetti.

O diretor presidente da ASSTBM lembra que é preciso buscar o respeito ao policial, pois, segundo ele, o profissional já foi mais respeitado. “Aí vem uma pessoa e diz que não é preciso ter medo da polícia. Eu acho que quem tem que ter medo da polícia é o bandido. O cidadão bom respeita a polícia. O marginal não. Mas este tem que ter medo sim, e, para isso, temos que ter uma polícia forte que atue com condições de sair de casa com segurança e deixando a família bem. Não adianta querer apertar o marginal e depois ser vizinho dele e sofrer uma vingança em algum familiar”, defende.

Morando em terreno inimigo

Questionado sobre a situação dos policiais que, devido aos baixos salários, muitas vezes tem que morar em lugares supostamente perigosos, Zibetti avalia que a situação ainda não chegou ao mesmo patamar observado em outros Estados. “Graças a Deus não chegamos na situação do Rio de Janeiro, onde o policial tinha que esconder a farda. Nós já temos focos em Passo Fundo, em algumas vilas, onde está faltando um juiz determinar o mandado de busca e apreensão em todos os casebres, fazer um arrastão, como foi feito no Morro do Alemão.”

Segundo Zibetti, o policial muitas vezes tem medo da situação, mas ele não tem outra opção. “Só espero e torço para que nenhum PM tenha se vendido para o tráfico, pois eu digo que o pior marginal é aquele que usa farda de polícia. Esse, para mim, é duplamente, pois está vendendo a própria vida dos seus colegas”, ressalta.

O amor pela profissão

Zibetti lembra que quando abrem vagas para ingresso na Brigada Militar, milhares de candidatos se dispõe a entrar na corporação, pois, segundo ele, a vontade de ser ‘polícia’ faz parte do sonho de muitos. “Quando você tem um sonho, nem quer saber quanto ganha. Depois que tu está lá, o amor pela profissão entra no teu sangue e tu não sai mais. Isso acontece muito na Brigada Militar. Muitos jovens que entram até se decepcionam, acham que poderiam estar ganhando mais, mas não vão sair, pois acabam gostando. A profissão entra na gente. É o mesmo que aconteceu comigo e com a maioria dos policiais”, garante.

A melhor e mais mal paga polícia

“A sociedade quer bem a Brigada Militar. Isso eu já vi em Porto Alegre, quando fazíamos caminhadas e a população jogava papel, comemorando. Aqui, em 1997, durante a greve que ocorreu, onde fui um dos líderes, saímos cantando o hino Riograndense e a sociedade nos aplaudia. Mesmo que paramos as atividades, ela ficou do nosso lado”, exemplifica Zibetti.

Ele complementa: “Se tu pegar um exemplo de hoje, talvez alguém que more do lado do bandido não vai elogiar um brigadiano, mas por medo desse bandido. A Brigada, na minha opinião, é uma das entidade que mais tem respaldo. A polícia gaúcha é um exemplo para o Brasil. É a melhor polícia do país, dito pelas outras polícias, e é a mais mal paga.”


Por um salário digno

José Luiz Zibetti não concorda com o posicionamento do novo comandante da Brigada Militar, que em vez de pensar em dar um aumento de salário está falando em aumentar um pouquinho a hora extra. “Tu tem tuas seis horas de serviço. Legalmente, tu trabalhou seis horas pela Brigada, em uma atividade muito tensa, aí tem que ter teu descanso. Mas o soldado vai pegar mais quatro horas, trabalhando 10 horas por dia. Imagine isso dia após dia. Depois de um mês, o policial vai estar tão estressado que não vai dar a segurança pública que a comunidade precisa, não vai mais ter calma para atender alguém com problema, pois a BM, além de fazer segurança, faz também uma atividade social nas vilas.”

Ele defende que o governo não dê hora extra, mas sim um salário digno. “Pega essas quatro horas que queria dar, transforma em dinheiro e manda um aumento para nós. Com certeza o que tu deixa de fazer em seis horas no preventivo não vai fazer em 10 horas, pois não é somente o homem na rua 24 horas que vai resolver o problema da segurança pública. Isso passa pelo social, por um policial bem pago, com viatura, armamento, condições de trabalho e uma educação para a sociedade”, defende.


A PEC da dignidade

Os servidores de nível médio da Brigada Militar, ao longo dos anos, foram os que tiveram os salários mais achatados. Mais de 80% dos policiais estão em um nível médio. Questionado sobre uma possível desilusão referente à PEC 300, que em sua proposta original pretendia igualar o salário de todos os policiais militares do Brasil, Zibetti ainda tem esperança da aprovação, porém, é um defensor da PEC da dignidade, como foi batizada a Proposta de Emenda Constitucional a nível estadual que busca melhores salários no Estado. “A Gente ainda tem esperança. É uma incoerência do governo, pois na campanha todo mundo era a favor da PEC 300. Imagina se vai um candidato e diz que era contra. Mas, terminou a eleição e na primeira reunião que foi feita em Brasília, o governo do Estado já mandou um representante que disse, em bom tom, que o Rio Grande do Sul é contra a PEC 300”, lamenta.


E complementa: “Com isso, estamos fazendo uma emenda popular com 80 mil assinaturas em mais de 50 municípios. Vamos intensificar a ação em fevereiro. Esse número de assinaturas é 2% de todo eleitorado do RS. Nós vamos conseguir e aí a PEC vai para a Assembléia. Quero ver o que os deputados vão dizer. Faremos uma pressão com painéis, colocando na imprensa quem votou contra, pois o Tarso já disse que quer dar esse salário. Ele disse que o soldado, no final do primeiro mandato do governo dele, não vai ficar com menos de R$ 3,5mil. Isso dá mais ou menos, hoje, o que queremos”, projeta Zibetti.

Ele finaliza com uma brincadeira. “Existe o noivo e a noiva que querem casar. Só faltava o padre. E agora estamos dando o padre, que é a nossa PEC, para que saia o casamento.”

Paulo Daniel

(Redação Passo Fundo / DM)



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