domingo, 28 de julho de 2013

O fardo leve do cristianismo


Os espíritas acreditam, como também os seguidores de muitas outras religiões, que a felicidade do homem é alcançada na medida em que ele atinge a sua evolução moral. Quanto mais moralmente evoluído o espírito, mais feliz ele se tornará, podendo alcançar o “reino dos céus”.


Mas do que se trata esta evolução moral? A evolução moral nada mais é do que a capacidade do espírito de praticar a lei de Deus, que é a lei do amor ao próximo, “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” sendo que a melhor maneira de demonstrar amor a Deus é amando os seus filhos, nossos irmãos.

Muitas religiões impõem como pré-requisito ao encontro com Deus ou à evolução moral, rituais muitas vezes desgastantes e um tanto incompreensíveis e outras vezes ainda dolorosos e até mesmo seriamente prejudiciais à saúde. São incontáveis os rituais mais variados que foram criados pelo homem (e não por Deus) desde os tempos mais remotos até os dias modernos. 

Nos tempos mais antigos, em que acreditava-se que Deus tinha interesses e sentimentos como dos humanos, eram comuns os sacrifícios e oferendas, pois, o homem primitivo acreditava que um Deus (ou deuses) vingativo poderia se acalmar com o sacrifício de uma virgem e poupar um povo inteiro; ou então acreditava que Deus poderia ficar contente com a oferenda  de alimentos ou itens de valor em altares, da mesma maneira em que se ofereceria a um conquistador estrangeiro poderoso e ganancioso com poder para invadir e aniquilar uma cidade.

Já nos tempos mais modernos a evolução da inteligência e da moral do homem fez com ele criasse também rituais, muitos deles sendo ainda absurdos e despropositados, mas já contendo em sua maioria o pano de fundo da idéia de um Deus que condena os maus hábitos e os comportamentos egoístas e depravados. 

Destas religiões mais modernas surgem os rituais das rezas constantes ou repetitivas ou em horas marcadas, que podem possuir como pano de fundo a idéia de que devemos cultivar o habito de agradecimento e reconhecimento a Deus pelas boas obras e também o hábito de pedir a Deus auxílio para superar as dificuldades e praticar boas obras. Também surgem os rituais de auto-flagelo e outras punições dolorosas auto-impostas, estas práticas têm como pano de fundo a idéia de que Deus é justo e que nós sofreremos as conseqüências de nossos erros. 

Também existem os jejuns e a castidade, que servem como maneira de controle da gula e do impulso sexual descontrolado, mas que o homem acaba transformando em rituais e dogmas, fazendo com que ele mesmo não consiga na maioria das vezes enxergar o fundamento moral e a finalidade destas práticas.

Mas para os espíritas é diferente, no espiritismo não existem rituais sagrados e mesmo a prece do pai nosso é praticada sempre com a memória exata do significado de cada frase, evitando-se uma repetição de frases sem significado para quem ora; neste aspecto o espiritismo é parecido com as idéias do fundador do Budismo, que, apesar de ter fundado a religião que acabou por adotar inúmeras práticas rituais, já ensinava ele há 2500 anos a desnecessidade da prática de rituais e da adoração de objetos e imagens.

Neste sentido aparenta-se ser mais fácil a adoção do espiritismo por não possuir rituais, nem torturas auto-impostas ou a obrigatoriedade de qualquer contribuição em dinheiro ou também restrições de horas e locais para oração que atrapalhem a vida cotidiana. 

Mas como nas outras religiões, existe no espiritismo também a obrigatoriedade de se seguir mandamentos de cunho moral; a vontade de Deus, como nas outras religiões, também está presente na doutrina espírita e nos ensinamentos do cristo. Existindo um único Deus, a sua vontade, que é a evolução do homem pela prática do amor ao próximo, está também claramente exposta no espiritismo, como nas outras religiões, mas neste, pela não existência de uma cortina de rituais atrás da qual pode se esconder uma alma preguiçosa, existe menos espaço, menos oportunidades de desvio da verdadeira vontade de Deus.

Um espírito trabalhador e fiel, adotando qualquer religião, terá oportunidades suficientes para alcançar sua elevação e felicidade pela prática das leis de Deus, mas um espírito preguiçoso e ainda em dúvida quanto à sua fé pode se apegar a rituais e dogmas sem utilidade prática e que não o auxiliam na sua própria evolução. 

No espiritismo este espírito não encontra espaço para este tipo de desvio de finalidade da religião e o resultado é que não possuindo cortina atrás da qual se esconder o espiritismo acaba se tornando para este espírito preguiçoso uma religião dura e difícil de seguir, ou, por outro lado, pode acabar por torná-lo um grande hipócrita que prega o bem externamente e não se importa realmente em praticá-lo.

Mas, como dito, somente a alma preguiçosa e sem fé suficiente é que visualizara grandes obstáculos para a adoção dos ensinamentos do espiritismo ou da prática do cristianismo sincero em qualquer religião que seja, pois como disse Jesus “o meu jugo é suave, e o meu fardo e leve”, e é assim mesmo que será para todos nós quando começarmos a praticar os ensinamentos de cristo de forma dedicada e sincera.

Por exemplo, vamos analisar a prática cristã do desapego material. Para o espírito materialista, ainda apegado a seus bens e suas posses e que ainda orienta sua vida, sua carreira e suas prioridades para a conquista de bens materiais, a prática do desapego parece uma punição muito dura. 

Preferiria ele praticar o auto-flagelo com um açoite a ter que se desapegar da sua obsessão por mais bens materiais supérfluos. Não sabe este espírito como este fardo é leve; como a desapego é uma prática gratificante e tranqüilizadora. 

A pessoa que se desapega do materialismo ganha novos horizontes e novas metas de vida, quase que automaticamente. A corrida enlouquecida pelo dinheiro, pelos cargos mais bem remunerados, pelo sucesso comercial etc. transforma por parte da população em verdadeiros zumbis; o sujeito deixa de pensar racionalmente e passa a raciocinar em função dos lucros e prejuízos possíveis; deixa de expandir seus horizontes intelectuais e religiosos e gasta todo o tempo disponível para estudo em busca de fórmulas mágicas de sucesso financeiro, ou na obtenção de títulos e diplomas que podem alavancar sua carreira profissional. 

Este sujeito  materialista não faz idéia de como é gratificante empregar seu tempo livre ou seus recursos materiais em função da ajuda ao próximo, o que para ele parece um fardo pesado é na verdade um serviço altamente gratificante, o sentimento de bem estar sincero em quem pratica uma boa ação é quase que uma recompensa imediata.

E quanto à prática cristã da humildade, será ela um fardo pesado? Para o orgulhoso talvez possa parecer que sim. Quantas pessoas, por exemplo, não gastam boa parte de seu tempo lendo textos de conteúdo preconceituoso em que são criticados os pobres, os nordestinos, os negros, as pessoas que recebem algum auxílio do governo, os estrangeiros etc. e desperdiçam sua inteligência e sua capacidade multiplicando idéias preconceituosas baseadas na idéia de inferioridade de certos grupos e superioridade de outros, em que ele convenientemente se encaixa. 

A idéia de igualdade entre todos os povos parece sim um fardo pesado para o orgulhoso, assim como a idéia de igualdade moral, intelectual e de direitos e deveres entre indivíduos de classes sociais diferentes. Para o humilde, para aquele que já aprendeu as vantagens da humildade sincera, este fardo é levíssimo; sua mente e seus ideais se abrem, ele começa a enxergar a beleza da multiplicidade cultural, ao mesmo tempo em que se aproxima o suficiente para sentir de perto a vida, as idéias e os corações bondosos e generosos de pessoas de grupos e classes sociais com as quais ele costumava evitar o convívio. Tanto nesse como em qualquer outro aspecto da vida em sociedade, a humildade é sempre um fardo leve e, na verdade, gratificante em si mesma.

O mesmo se aplica a todos os mandamentos da vida cristã. A prática do perdão é também gratificante e é mais um fardo leve, fácil de ser praticada por quem já aprendeu as suas vantagens. O costume de se preocupar com os outros, expondo a si mesmo nas mais diferentes situações evitando o costume comum do “isso não é problema meu” ou o “vou fingir que nem vi” para evitar problemas e a exposição pessoal , não é nem um pouco lucrativa quando comparada por exemplo à prática do “dar a cara a tapa”, o costume de se expor para lutar pelos direitos dos semelhantes e dos menos favorecidos, o fardo desta luta é leve e também gratificante. 

O que para uns parece um fardo pesado e um sofrimento voluntario que poderia ser evitado, é, para quem põe em prática o evangelho de Jesus, na verdade um fado leve e cheio de recompensas.
Todos aprendemos desde criança a lição do ditado popular de que “o crime não compensa”, ou seja, fazer o mal aos outros para obter vantagens pessoais não compensa, mas estranhamente poucos são aqueles que conseguem aprender e por em prática uma outra lição simples e que se baseia na mesma lógica simples, a lição de que o amor ao próximo compensa.