quarta-feira, 10 de julho de 2013

Os velórios e enterros


Os velórios e enterros são uma prática da qual ninguém pode fugir, mas que variam conforme as culturas de cada povo e conforme o esclarecimento espiritual que tenhamos acerca da morte do corpo carnal. O que o Espiritismo tem a dizer sobre isto?

José veio de Angola. Lembra-se, na traquinice dos seus então 10 anos de idade, que ir a um velório era uma alegria. Seguia os pais, não havia capelas mortuárias, o corpo era velado na sala da casa dos familiares e, ao lado, havia sempre uma mesa bem-posta, tipo aniversário, com sucos, comidas, bolos etc.

Joana, há pouco tempo, viu o marido com 30 anos de idade fulminado pelo cancro. O velório e funeral foram uma tortura, mil e um beijos, mil e uma vezes a repetir e a ouvir a mesma coisa.

Maria, conhecedora do Espiritismo, aproveitou a desencarnação (falecimento) da sua mãe para fazer do velório e do funeral algo de nobre e digno: no velório, tinha música de fundo, música clássica, ambiente calmo, tranquilo, vestidos normalmente, sem as cores negras habituais. “Foi uma maravilha”, referia a própria, que ainda hoje sente saudades (no bom sentido) da mãe.

Vera viu a vida carnal do irmão ceifada por um acidente rodoviário, sem que ninguém contasse. Eu fui ao velório, e fiquei chocado com a falta de respeito pelo defunto, tamanha era a balbúrdia no espaço do velório, com conversas, risos, anedotas etc.

Julieta vive no Algarve, é espírita conhecida. Já foi convidada para orientar vários funerais, onde, de uma forma calma e lúcida, incentiva os presentes à oração sincera, à leitura de um trecho espírita, e a sua explicação, onde não falta a música suave, é gravada ou ao vivo, com viola ou outro instrumento.

Mas o que é que a Doutrina Espírita (ou Espiritismo) tem a ver com isto?

A Doutrina Espírita – ou Espiritismo (que não é mais uma religião nem mais uma seita) – provou em 1857 que a imortalidade do Espírito é uma realidade, e, desde então, inúmeros cientistas e pesquisadores, espíritas e não espíritas têm comprovado as assertivas espíritas de meados do século XIX.

A morte carnal é apenas o largar de um corpo por parte do Espírito, corpo que já não lhe serve, tal como nós largamos um par de calças, para substituir por outro, quando crescemos e as calças já não nos servem mais. O corpo carnal é apenas o revestimento visível, para se poder interagir neste planeta, sendo que, uma vez esgotado, o Espírito continua a sua vida no mundo espiritual, reencarnando mais tarde num novo corpo carnal, trazendo os conhecimentos e tendências adquiridas em vidas passadas. 

O Espiritismo ensina-nos e explica-nos o porquê da vida, de onde viemos e para onde vamos, numa lógica assente em pressupostos científicos

Uma coisa é a morte do corpo de carne (falência dos órgãos vitais), outra é a desencarnação (libertação do Espírito do seu corpo carnal).

Nem sempre uma coincide com a outra.

Quando o Espírito é muito materialista ou muito apegado aos seres que estão na Terra, ou em outras situações, pode eventualmente ficar “ligado” mentalmente aos despojos carnais, durante um tempo indefinível, variando de caso para caso.

Nesses casos, o Espírito sofre com o que ouve no seu velório, no seu funeral, as anedotas, as histórias da sua vida, as críticas que o atingem como lâminas, que avivam as feridas da alma.

Se queremos estar presentes num velório ou num funeral, devemos fazê-lo não por convenção social, mas sim por solidariedade para com os familiares do defunto, bem como pelo respeito a ele.

Tal implica que, na presença do féretro, tenhamos uma atitude de respeito, normal, não necessitando de tristezas ou choros desnecessários, que só afligem, quer os que cá ficam, quer os que partem para o mundo espiritual.

A atitude de quem entende a morte carnal como uma passagem para a outra margem do rio da vida é serena, tranquila, envolta em pensamentos nobres e espiritualizados, calando defeitos do defunto, e relembrando apenas as coisas boas da sua vida, de modo a facilitar a sua transição para o mundo espiritual.

Quanto ao resto, não deixam de ser apenas rituais mais ou menos folclóricos, de acordo com os hábitos culturais de cada nação.

Ensina-nos a doutrina espírita que o momento é difícil para quem parte, e cumpre-nos a caridade do silêncio, da serenidade, da alegria contida, e essencialmente da oração sincera em prol do ser humano que largou as vestimentas carnais para adentrar mais uma vez a pátria espiritual, nesse processo reencarnatório que terminará um dia, quando formos Espíritos puros.


Bibliografia:
Kardec, Allan: O Livro dos Espíritos.