segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Procura-se um Povo!


Mas não é esse que se encontra nas ruas, embaixo de marquises e pontes. Não é esse povo que já se acostumou a ver suas crianças morrerem de fome, de frio, e de doenças.

—  Será que o Povo que procuro está:

  Lendo sobre o holocausto nazista,
  Assistindo filmes no cinema sobre a terrível guerra do Vietnã,
  Ou sobre os conflitos internos do homem na sociedade construída pelos habitantes dos países do 1º- mundo?

  Procura-se um Povo!

Mas não esse que se acotovela em barracos construídos com caixas e papelão. Nem o que constrói buracos no chão para morar, ou "casas" sobre os mangues, cercado de baratas e ratos.

—  Será que o Povo que procuro está:

  Quem sabe, lendo livros sobre socialismo, ou comunismo?
  Entre suspiros, pregando a necessidade de uma reforma social?
  No interior dos teatros assistindo peças sobre a miséria humana?

  Procura-se um Povo!

Mas não é esse que bebe água do esgoto que passa embaixo dos viadutos onde mora. Nem o que revira latas de lixo para ter o que comer. Nem o que cata papel, papelão, plástico, para comprar algo para comer, e assim sobreviver por mais um dia.

—  Será que o Povo que procuro está:

  Reclamando,
  Está em alguma festa,
  Recostado em algum sofá,
  Sentindo-se lesado no seu direito de ir e vir?
  Falando da insegurança das grandes cidades,
  Ou será que conversa, durante o jantar, em algum restaurante, sobre as mulheres daquele povo que não param de ter filhos e que deveriam ser esterilizadas?

  Procura-se um Povo!

Mas não é esse que esmola nas ruas, exibindo crianças raquíticas e doentes, ou feridas abertas que teimam em não curar. Nem esse povo que sorri sem expressão, sem alegria, sem dentes.

—  Será que o Povo que procuro está:

  Nos cursos de inglês,
  Nas academias de aeróbica,
  Falando dos "trombadinhas" pedindo trocado,
  Falando dos "trombadinhas" pedindo resto do sanduíche,
  Falando dos "trombadinhas" que importunam na lanchonete.
  Ou será que estão lanchando, repugnados diante da criança magra, suja, remelenta, que estende a mão, ousando pedir algo que mate a sua fome, a fome de toda uma vida?

  Procura-se um Povo!

Mas não é esse que tem que lutar cada dia sem saber se terá o que comer à noite, comprando a vida no varejo por não podê-la comprar no atacado. Nem esse cujas filhas são obrigadas a se prostituir desde a infância, para sobreviver.

—  Será que o Povo que procuro:

  Fala em gabinetes,
  Da legalização do aborto,
  Tratando da pena de morte,
  Da esterilização das mulheres daquele outro povo,
  Como a solução para os problemas que assolam a sociedade?

Não! Eu procuro um Povo com P maiúsculo.

  Um Povo capaz de sentir, mas sentir profundamente:

  A desesperança daquele que não tem onde morar,
  A dor de um pai que vê seu filho morrer lentamente de fome, 
  A animalização daquele que passa a viver de restos e perde toda e qualquer noção de Dignidade,
  O desespero daquele que não encontra trabalho para garantir o sustento de sua família e a vê se esfacelar.

Procura-se um Povo que tenha a força interior para mudar tudo isso.

  Esses que se encontram nas ruas não o podem fazer.
  Os que fingem não ver, não o farão.

  Procura-se um Povo que queira fazer,
  Procura-se um Povo que seja solidário,
  Que queira lutar contra a Miséria que mata...

... Aos poucos, milhares de pessoas todos os dias, que mina as resistências, e destrói todos os valores morais.

  Procura-se um Povo constituído de gente como você:

  Que não consegue mais viver neste mundo do jeito que ele está,
  Que deseja fazer algo além de reclamar,
  Ou lamentar.

Procura-se um Povo capaz de arregaçar as mangas, de se doar.

  Procura-se um Povo que acredite que aqueles que se encontram nas ruas:

  São gente,
  São brasileiros,
  Como cada um de nós.

Juarez Barbosa Perissé.