quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A COMPLEXIDADE DO MUNDO ESPIRITUAL

Não será para admirar que muitos, ao lerem este livro, principalmente na parte que trata do "plano da vida após a morte", recebam com indiferença, e mesmo com cepticismo, as descrições que damos da Vida no Outro Mundo.

Alheios às coisas espirituais; viciados por um culto rotineiro que não fala à razão nem ao coração; passivos às injunções sacerdotais, que têm sufocado as mais belas aspirações humanas, para descortinar o seu futuro, o homem, preso ao dogma e a bastardos ensinos que têm desvirtuado a natureza íntima da Outra Vida, não pode deixar de se admirar da complexidade do Mundo dos Espíritos.

Como acreditar sem indispensável preparo, que, em vez de um Céu abstrato, de indolente contemplação, de um Purgatório purificador, de um Inferno de chamas, existe um Mundo absolutamente complexo, onde há tudo o que é preciso para que a vida normal do Espírito não se ressinta da falta dos meios necessários ao seu bem-estar e, simultaneamente, ao seu progresso!

Como crer na existência de parques, cidades, avenidas, casas, edifícios, jardins, flores, no Outro Mundo, se os ensinos clericais nos pintam a Outra Vida com cores muito diversas, como se ela fosse o extremo limite da existência, a última etapa a que irremediavelmente teríamos de chegar e que resolveria absolutamente a nossa condição futura?

A Revelação dos Espíritos veio produzir uma revolução completa nas idéias da Humanidade sobre a outra vida.

Contrariando toda conjectura e todas as concepções humanas, os Espíritos se manifestaram e nos trouxeram notícias esclarecidas do Mundo em que habitam, e essas revelações, longe de terem caráter pessoal, têm sido dadas em todos os pontos do globo e em épocas diversas. E elas foram julgadas concludentes por homens de grande valor, como Conan Doyle, Oliver Lodge, Carl du Prel e outros.

Este último, ilustre cientista, no seu livro La Mort I'Au Delà - La Vie Dans I'Au Delà, afirma que possuímos, realmente, uma metafísica e acrescenta:

"Tudo o que é imperceptível aos nossos cinco sentidos, tudo o que não reage sobre a nossa organização, - e é, provavelmente, muito, - tudo isso pertence ao domínio de uma metafísica. Nós não sabemos se, para apreciar as coisas, nos faltam ainda dez sentidos ou talvez cem. O além não é senão um Além, além dos nossos sentidos, que é o desconhecido neste mundo. A crença infantil dos povos colocou o Além nas esferas superiores, porque consideravam a Terra como o centro do Universo. Copérnico pôs fim a esta concepção errônea; devassou o Além e deslocou o Céu. Mas se colocarmos o Além mesmo neste mundo, ele será nosso e ninguém poderá no-lo arrebatar".

"A linha de demarcação entre este mundo e o Além não é geométrica; ela é traçada pelas nosssas sensações. Este mundo e o Além não estão próximos um do outro; ao contrário; eles estão um no outro, de sorte que, a despeito de Copérnico, nós possuímos um Além. Nenhuma prova nos foi dada de que iremos para um outro lugar depois da morte. É preciso, então, até que venha uma prova contrária, que consideramos o corpo astral, que sobrevive à morte, como permanecendo neste mundo após a desencarnação. Se os fantasmas e as materializações que o Ocultismo Moderno nos mostra são reais, devemos admitir que o Além é um lugar de onde se pode voltar. O mais racional seria, então, admitir que este mundo e o Além se acham no mesmo plano. Diz-se que os fantasmas "voltam"; não é isto uma expressão gratuita? É mais justo dizer que os seres que aqui se acham invisíveis aos nossos olhos, sofrem uma condensação da matéria do corpo astral, tal como observamos nas sessões espíritas, e bastaria que tivéssemos uma intensidade maior de percepção para os ver.

O corpo astral é a essência de nosso ser - vemo-la agir telepaticamente por meio de suas faculdades ocultas, ele se torna visível na exteriorização e nos casos de telepatia; logo devemos também admitir que toda a substância terrestre possui, como o ser animado, uma substância metafísica. Existe, então, um mundo físico que, no espaço, não faz senão um, com o nosso mundo terrestre. Eis o que entendia o Espírito Estella, dizendo: "Nós possuímos tudo o que vós possuis: jardins, flores espirituais em abundância". Julgar que só o homem possui uma alma imortal, é provocar a pergunta: por que este privilégio seria dado aos asnos de duas patas e não aos de quatro? E se nós reconhecemos que os dois mundos se entrelaçam, temos resolvido um problema muito perturbador, e não temos necessidade de ir procurar um Além separado de nós no espaço".

Estas considerações do ilustre cientista são muito razoáveis.

E a tudo isto precisamos acrescentar as construções e criações fluídicas operadas com a força do pensamento e da vontade, assuntos de que Allan Kardec tratou magistralmente no Livro dos Espírítos, no Livro dos Médiuns e o que outros reveladores têm feito mais circunstanciadamente ainda.

Pode-se, finalmente, concluir, de tudo isso, que os seres viventes, após à morte do invólucro físico, permanecem no Além, em meios que lhes são peculiares, conservando, até ulterior evolução, a forma que tinham na Terra, nos ares, nas águas.

É assim que se pode entender o fato de ser o nosso mundo um reflexo do Mundo dos Espíritos, que é revelado agora, não mais como uma abstração, mas, sim, como uma realidade; e parece-nos razoável sejam as plantas, as flores, nesse mundo, muito mais belas e perfumadas que as nossas, pois, em sua essência, não poderiam deixar de ser, bem assim os animais, muito mais inteligentes e bonitos que os terrenos.

Constituindo o Espírito e seu principio intelectual, a Individualidade, e, durante a encarnação terrestre, a personalidade, parece claro que, aquela, abrange certas faculdades metafísicas que a embelezam e enobrecem, ao passo que a personalidade fica adstrita a um limite ocasional. E, assim submetidos, não à Evolução da Espécie, mas à Lei da Evolução Anímica, tanto num mundo como no outro, os Espíritos, de acordo com as suas necessidades psíquicas, pelos renascimentos sucessivos, ou seja pela reencarnação, sobem com mais ou menos brevidade a escada do progresso para atingirem a Perfeição Espiritual. Por isso é que se diz que os dois Mundos: o terráqueo e o dos Espíritos, são solidários, reagindo um sobre o outro, além de que as Entidades de maior progresso neste último concorrem com as suas luzes para a evolução coletiva, ora ensinando, ora protegendo os seres que se acham sob sua guarda.

Repitamo-la: a outra vida não é uma concepção abstrata, mas constitui um mundo complexo digno de atenção e onde acumulamos os nossos melhores tesouros, tesouros incorruptíveis que nos garantem a verdadeira felicidade.

Cairbar Schutel