quinta-feira, 2 de maio de 2013

Mídia e violência-Texto de 2007


(Texto publicado na Folha Espírita em junho de 2007)
Cláudia Santos

Sabemos que a violência não é uma invenção da mídia, mas sua exposição, cada vez mais freqüente e em forma de espetáculo, tem nos deixado em um estado de letargia, em que somente acontecimentos cruéis nos fazem parar, pensar e até nos manifestar a respeito, tamanha tolerância que criamos dentro de nós e que nos tira a capacidade de indignação. Mas, afinal, a mídia está errada em divulgar notícias que dizem respeito à violência? Claro que não. Ninguém quer que haja sonegação de informações, mas deve-se saber contextualizá-la.

Segundo o cearense Luiz Eduardo Girão, 34 anos, empresário, acadêmico de jornalismo e diretor da recém-criada ONG Agência da Boa Notícia, que iniciou uma campanha conclamando a mídia a repensar o seu papel, enviando e-mails a jornalistas com o pedido para que a cultura da paz substitua a da violência (veja abaixo um trecho do texto, reproduzido, em 23 de março, na coluna do jornalista Engel Paschoal, na Folha de S.Paulo), os meios de comunicação passaram dos limites. “A mídia contribui para a realidade que estamos enfrentando. Só notícias ruins, crimes, corrupção, desesperança. Mas será que é só isso que ocorre no Brasil e no mundo? Claro que não. E por que não damos visibilidade ao que é bom? Por que não dá audiência? Isto é um mito que vem potencializando a própria violência em nossa sociedade. É, sem dúvida, um “tiro no pé”, acredita ele.

Em artigo recente publicado nos jornais O Globo e O Estado de S.Paulo, Carlos Alberto Di Franco, diretor da Di Franco - Consultoria em Estratégia de Mídia, faz uma análise coerente sobre o tema: “A overdose de violência na mídia pode gerar fatalismo e uma perigosa resignação. As pessoas imaginam que não há o que fazer. Acabamos, todos, paralisados sob o impacto de uma violência que se afirma como algo irrefreável e invencível. E não é verdade. Podemos, todos, jornalistas, formadores de opinião, estudantes, cidadãos, dar pequenos passos rumo à cidadania e à paz”, declara.

Pesquisas

Pesquisas recentes apontam que a visibilidade excessiva do crime é uma das formas de potencializar a violência. "E a cultura da violência faz isso: induz-nos a pensar que tudo está perdido. Que vamos ser assaltados a qualquer momento. A pessoa fica paralisada e aterrorizada de tal forma que nem sai mais de casa e continua assistindo a programas de violência. Logo vem a depressão, originada pelo medo, pavor, fazendo o indivíduo viver pela metade, como um zumbi, sem um sentido maior para a vida”, opina Girão. De fato, como é explicado através da Física Quântica no filme Quem somos nós?, a energia dos nossos pensamentos cria realidades. Se pensamos coisas boas, atraímos coisas boas.

Se pensamos coisas ruins, criamos uma atmosfera negativa, propícia para que coisas negativas aconteçam.
Girão vai mais além: “Felizmente, a realidade não é a que aparece na mídia. Basta perguntar às pessoas quantos assassinatos já presenciaram. É o velho mito de que notícias ruins dão audiência. Mas já se observa uma forte tendência para outro tipo de tema: a busca da espiritualidade, intimamente ligada à cultura da paz. Daí o sucesso de novelas e filmes que tratam do assunto”, completa.
Mídia impressa
Nélson Nunes, editor executivo de um jornal paulista, acostumado a fazer a primeira página e, portanto, a classificar as matérias de mais relevância nas edições, admite que o noticiário policial tem grande importância para os veículos. “Seria hipocrisia negar. Isso ocorre porque a violência hoje é um dado que impacta a vida de toda a sociedade. Ninguém está livre de um novo golpe, de um assalto e até de um seqüestro, que hoje virou uma ação banal para os bandidos. Os veículos de comunicação passaram a tratar a questão da violência urbana com uma abordagem mais ampla, que vai além do crime pelo crime, do sangue pelo sangue”, diz.

Na maioria dos casos, segundo ele, a violência é retratada nos jornais como uma questão de segurança pública e, como tal, interessa a toda a sociedade. “Quando um jornal noticia um seqüestro, ele promove um debate da sociedade sobre a escalada desse tipo de crime, como a pena para esse crime deveria ser tratada no congresso, como fazer para evitar ser a próxima vítima. Um fato policial é importante, vai para a primeira página, à medida que pode despertar a atenção das pessoas, provocar um debate, passar uma mensagem de alerta”, avalia.

Folha Espírita procurou a assessoria de imprensa da TV Bandeirantes para ouvir a produção do programa Brasil Urgente, o pioneiro da tevê em acompanhamento direto de casos policiais, mas não foi atendida.

Vocação

Um dos grandes desafios da comunicação na sociedade atual, segundo aponta Jaime Carlos Patias, mestre em Comunicação pela Cásper Líbero, é o de preservar a autêntica vocação do jornalismo, que tem uma função mediadora do espaço público. “A garantia do direito à informação e à liberdade de expressão faz parte da essência do jornalismo, que deve praticar uma comunicação voltada para a informação, para a formação e educação do povo, favorecendo o exercício da cidadania”, analisa.

Disso, ninguém tem dúvida. A mídia pode e deve informar, sim, mas, como disse Di Franco, com bom senso e sem sensacionalismo.

Campanha e prêmio pregam a paz

Pautada na discussão sobre a exposição da violência na mídia, foi aprovada, durante o Encontro Nacional dos Jornalistas em Assessoria de Comunicação, de 29 de março a 1º de abril, em Fortaleza (CE), a campanha “Eu quero é paz” e “Frente pela Paz”, assim como a criação da ONG Boa Notícia. Através dela, cria-se o compromisso pela paz em que a sugestão de pautas positivas deve se sobrepor à violência que atinge o País.

Com a mesma proposta, a de expandir a cultura pela paz, está a Revista Imprensa, que criou um prêmio nesse sentido. O Mídia da Paz é voltado para jornalistas e visa reconhecer ações dos veículos de comunicação, na categoria especial do júri – há outra categoria, Comunicação Institucional, voltado para empresas socialmente responsáveis. “A idéia é expandir a cultura pela paz, reconhecer as ações e projetos que promovam e abordam soluções na luta contra a violência, não só física, mas mental, social, política, urbana, ambiental, etc”, afirma Gabriela Miranda, assessoria de comunicação da revista.

“A cultura pela Paz e Não-Violência é um valor entendido como força maior a ser alcançada por todos os povos, que vai além da rejeição à violência. Essa cultura parte de princípios básicos que para se viver bem e com qualidade, como preservar o planeta, redescobrir a solidariedade, respeitar à vida. Acredito que o Prêmio Mídia da Paz vem para fomentar e incentivar esta cultura entre os brasileiros", afirma o diretor e editor da Revista Imprensa, Sinval de Itacarambi Leão.

Dados preocupantes

Segundo a ONG MOVPAZ - Movimento Internacional pela Paz e Não-Violência, as crianças brasileiras assistem, entre os 3 e 10 anos de idade, a 107 mil cenas de violência e a mais de 40 mil de tiros por ano. No Ceará, chega-se ao cúmulo de 13 horas diárias de programas de 'mundo cão' na TV. É recorde no Brasil.
Um grupo de estudantes da Universidade de Fortaleza (CE) pesquisou a reação da comunidade aos inputs de programas policiais. A conclusão é que o acusado fica respeitado e famoso quando aparece na tevê. E as crianças, carentes de educação e bons exemplos, o vê com admiração, ou seja, ele acaba sendo referência para aquele grupo de jovens.
Cultura da violência ou da paz? Você decide

Abaixo, reproduzimos trecho de e-mail enviado por Luiz Eduardo Girão à profissionais da imprensa e sobre o qual vale a pena refletir :

(...) “Os protagonistas deste horrendo espetáculo alcançaram requintes de masoquismo, fazendo com que na cena do crime se vejam pessoas querendo aparecer e rindo da própria desgraça. Com isso, a corrente do mal ganha força, criando novos 'super-heróis' e levando milhares de espectadores a se tornarem ávidos por cinco minutos de fama. Até porque o criminoso vira um astro de tevê nesses programas policiais. Este círculo vicioso, retroalimentado pela própria sociedade (empresas que anunciam em programas de violência), reforça a inversão dos valores do ser humano, o ter em vez do ser, gerando mais violência por deixar as pessoas mais tolerantes a ela...

(...) Quem patrocina programas com teor violento poderia direcionar o investimento para a cultura da paz, automaticamente contribuindo para um mundo melhor. Esses, sim, serão os empresários socialmente responsáveis. E o público tem um poder precioso em mãos: não consumir e até fazer campanha contra marcas anunciadas em programas que estimulam a violência. É questão de sobrevivência: se não descobrimos isso pelo amor, descobriremos pela dor.”
Quem quiser mais informações sobre o trabalho da ONG Boa Notícia pode enviar e-mail para legirao@hotmail.com e sobre o prêmio da Revista Imprensa, midiadapaz@portalimprensa.com.br e telefone (11) 2117-5308.