quinta-feira, 3 de abril de 2014

Câncer: um fator de metanoia

“E se aparecer a doença? Teremos de aceitá-la, porque somos humanos. Krishnamurti adoeceu de um câncer de pâncreas e ele não era alguém que levasse uma vida desregrada. Muita gente espiritualmente valiosa já adoeceu. Devemos explicar isso para aqueles que creem que adoecer é fracassar. O fracasso e o êxito são dois mestres e nada mais. E quando você é um aprendiz tem que aceitar e incorporar a lição da enfermidade em sua vida.”   – Jorge Carvajal, médico da Universidade de Andaluzia, Espanha, e pioneiro da Medicina Bioenergética na América Latina.

 Confesso que gostaria de registrar aqui uma perspectiva “clara” sobre o adoecer (o câncer) e que fosse também detentora de verdades fundamentalmente corretas, ainda que relativas, porquanto não podemos nos apartar da metáfora da  Terra  como  escola – em consequência: todos nós passantes e aprendizes, sobretudo da arte de amar e dos desapegos. Enfim, coragem!   (*)

 Se partirmos da ideia de que a origem da doença não pode ser buscada no terreno manifesto no qual ela aparece, ou que as causas da enfermidade não são materiais em sua origem, ou que na doença nada há de acidental, um sarcoma, como uma neoplasia maligna desenvolvida a partir de um tecido conjuntivo, pode representar um intento inconsciente de negar-se o indivíduo a aceitar algo que permanece em seu corpo reprimido, embora bem “vivo”, ou mesmo a agressiva expressão de um desgosto reiteradamente sufocado através dos anos, anos de silêncio. 

 Causas profundas das moléstias – Fazem eco, portanto, as explicações dadas por André Luiz e relacionadas à interessante pergunta extraída do livro  Evolução em Dois Mundos:

- É correto dizer que as causas profundas das moléstias perduráveis radicam-se no corpo espiritual?

 Sim. De modo geral, a etiologia das moléstias perduráveis, que afligem o corpo físico e o dilaceram, guarda no corpo espiritual suas causas profundas. A recordação dessa ou daquela falta grave, mormente daquelas que jazem recalcadas no Espírito, sem que o desabafo e a corrigenda funcionem por válvulas de alívio às chagas ocultas do arrependimento, cria na mente um estado anômalo que podemos chamar ‘zona de remorso’, em torno da qual a onda viva e contínua do pensamento passa a enovelar-se em circuito fechado sobre si mesma, com reflexo permanente na parte do veículo fisiopsicossomático ligada à lembrança das pessoas e circunstâncias associadas ao erro de nossa autoria. Estabelecida a ideia fixa sobre esse nódulo de forças mentais desequilibradas, é indispensável que acontecimentos reparadores se nos contraponham ao modo enfermiço de ser (2005, pp. 213 e 214). (Negritos meus.)

 E visto assim, o câncer (descontrole) se polariza com esclerose (conduta emocional rígida) onde a temática do adoecer radica em algo que passa a fazer frente à vontade de viver. E também não podemos ignorar o fato de que em situação de doença uma parte do Self  biológico deixa de funcionar. Assim, no caso de um crescimento tumoral, por exemplo, ele, o Self biológico, por razões variadas e em acordo com cada narrativa de alma,  não tem força bastante para deter o controle. Por sua vez, isto representa uma ‘puxada de tapete’ sob os pés da existência física.

 Muitos autores então relacionam o padecimento câncer com a psicose e falam, ante sua presença, do afloramento de uma psicose corporal, isto é, de uma experiência de tanta dor para a consciência que a personalidade (o ego) não pode enfrentá-la e em consequência se mascara sobre si mesma para romper mais tarde a solidariedade biológica do organismo. 

 A misteriosa etiologia do câncer – Dito em outros termos, um conjunto de células – subversivas – se isolam e quebram o padrão de seu funcionamento habitual, multiplicando-se patologicamente e consumindo o tecido no qual se assentam (aqui o espaço preciso em que a dinâmica do descontrole se assenta – por exemplo, fígado etc.). E mais cedo ou mais tarde o corpo tenderá a sucumbir ante esta devoradora “insanidade celular”.  

Ainda, outros relacionam a misteriosa etiologia do câncer à carência de amor, feridas emocionais, perdas e/ou lutos mal elaborados. Para muitos se avizinha um franco agarrar-se a  Thanatos, segundo uma recusa de  viver-e-conviver-para-aperfeiçoar-se.

 Mas, e apesar da [minha] renúncia a uma visão materialista da doença (e por isso um resistir aqui a pensá-la apenas no contexto das toxinas ou como algo que venha “de fora”, pondo em risco o organismo, por exemplo), o câncer nunca é um acontecimento isolado ou criado à mercê de evento único. 

 Ao contrário, segundo uma terapêutica que não nega o viés necessariamente advindo do   campo íntimo/espiritual, o câncer é povoado de sentidos mal iluminados e segredos, pois fato é que somos, de ordinário, tanto obrigados a viver sem o conhecimento absoluto como a sobreviver com o passado sobrecarregante (de muitas memórias entremeadas de emoções e condutas rejeitadas), que invade intenções do presente e as desorganiza, estressando-nos, fazendo-nos ignorar nossas vulnerabilidades e metas honestas sobre nossa “natureza espiritual” e, portanto, nossas reais necessidades.

 Infelizmente, no geral, resistimos ao ditame de nossa Alma à medida que professamos sempre as mesmas soluções pegajosas recriadas nestes tempos tomados por futilidades  – e com isso os vícios do egoísmo e da belicosa competitividade, o comando multifacetado da regra do ouro (1) que, imitando o câncer, diz que o ser humano existe unicamente para se espalhar de forma indiscriminada e ilimitada sobre a Terra. Por isso, as usuais atitudes desprovidas de compaixão e respeito por trabalhadores (explorados), animais-e-plantas  (matérias-primas), segundo o princípio do parasitismo – logo, desilusões e insatisfações inesgotáveis...  

 O câncer deve ser compreendido, não somente combatido – E tudo isso, sem dúvida, pode, ligado à causa pretérita [cármica] e idiossincrasias [aqui um próprio desejo da Alma para progredir], também gestar o adoecer, derivando no terreno físico do câncer. Mas ele, o adoecer, por si mesmo, pode representar uma grande oportunidade para descobrirmos nossos próprios erros de pensamento e sentimentos, especialmente quando atentamos para o fato de que a célula cancerosa busca a vida eterna na multiplicação material e na expansão, ou seja, equivocadamente ela, a célula, não compreende que a questão “eu ou os outros?” é em sua gênese equivocada, porque como parte somos simultaneamente unos com o todo (pars pro toto).

 Não é por acaso que tantos sofrem de câncer em nossa época, e o fato de combatê-lo muitas vezes sem êxito, embora contemos hoje com muitos casos de tratamentos bem-sucedidos (2), uma vez que esta enfermidade retrata como um espelho nossos comportamentos e hábitos coletivos, nossa distração “civilizatória” que insiste na falsa convicção da divisão entre o “eu” e o “tu”...

Assim o câncer pede também para ser compreendido e não somente combatido. O doente, desse modo, pode ser esclarecido, consolado e orientado a fortalecer-se para curar-se (num termo mais apropriado: autocurar-se) (3). Além disso, o adoecer pode por enquanto ser observado como parte da estrutura ontológica do ser humano – consequentemente, o câncer pode ser visto como um modo de “desvelamento” do Ser, de suas partes escuras, reprimidas/renegadas e que se expressam por este itinerário – uma alusão à doença como  caminho (4). 

 

 (4) Cf.: Dethelefsen, T.; Dahlke, R. A doença como caminho: uma visão nova de cura como ponto de mutação em que um mal se deixa transformar em bem. Trad. Zilda H. Schild. SP: Cultrix, 1999.

 Xavier, Francisco Cândido.  Evolução em dois mundos. Pelo Espírito André Luiz. 23. ed. RJ: FEB, 2005.

 Dalhke, Rüdiger. A doença como linguagem da alma.  Trad. Dante Pignatari. SP: Cultrix, 2007.  

 Soesman, A.  Our twelve senses: wellsprings of the soul. Stroud, England: Hawthorn Press, 1990. 

 
 Eugênia Pickina é terapeuta floral, educadora e palestrante, e presta consultoria para projetos sociais dedicados ao cuidado do Ser, especialmente na faixa etária de 0 a 7 anos. 



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